Morreu Luiz Pacheco, implacável e feroz escritor
Foi escritor, editor, crítico literário e implacável cronista. Luiz Pacheco morreu na noite de sábado, no Hospital do Montijo. Tinha 82 anos. E já não há homens como ele.Personagem de fibra invulgar, há já algum tempo que parecia aguardar a sua morte com a resignação esculpida num encolher de ombros. "Um tipo já está fora do seu tempo", disse, ao JN, durante uma conversa em Dezembro de 2002, no pequeno quarto onde então vivia, na Liga dos amigos dos Hospitais, em Lisboa. "No Bairro Alto, há a livraria Ler Devagar; aqui, é mais Morrer Devagar. Ao menos, um gajo aqui está protegido - não lhe cai um carro em cima. Só que esta protecção é também uma forma de apagamento", apontou ainda.Luiz Pacheco nasceu em Lisboa, no dia 7 de Maio de 1925. Chegou a frequentar o curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa mas acabou por desistir devido a dificuldades financeiras. Tais atribulações foram, aliás, uma constante ao longo da sua vida. Não raras vezes, viveu sem meios de subsistência para sustentar a família, chegando a situações de miséria, que ia ultrapassando à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues. Tudo isso está espelhado em algumas dos suas melhores prosas "A Comunidade" (1964) é um dos exemplos mais famosos.
Outro que merece urgente leitura é "Uma viagem quase trivial", prosa hilariante na qual Pacheco relata como conseguiu fugir de uma pensão no Porto sem pagar o quarto, metendo-se num comboio rumo a Lisboa enquanto pedia moedas aos passageiros.Durante cinco décadas, Luiz Pacheco escreveu centenas de textos, foi preso, armou desatino, e editou nomes como Herberto Hélder, Cesariny ou António Maria Lisboa. Fez muitos amigos e ainda mais inimigos.
Em Dezembro de 1977, Baptista Bastos ("um gajo muito giro, um belíssimo camarada", como Pacheco lhe chamaria em 2002) escreveu, sobre Luiz, palavras certeiras no "Diário Popular" "Sátiro de três ao vintém, libertino de extracção caseira; redutor da vulgaridade e da grosseria, alcoólico, intriguista maior, retirante de todos os sítios, lítera do século XIX, ressurrecto em truculência, saltimbanco, incongruente e inconsequente - fez da literatura um meio de vida e desta um universo próprio. Luiz Pacheco é meu amigo mas eu não acredito no diabo".
O seu corpo vai ser cremado amanhã, pelas 19 horas, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Não consta que se lhe reze uma missa.
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