"Lisboa - o charme de vender património"

Num momento em que a capital Lisboa perdeu 25% da sua ocupação hoteleira, a Câmara vai avançar em Fevereiro para a alienação de seis palácios devolutos do município, que irão acolher hotéis de charme.
Estima-se que o plano da venda daqueles imóveis, cuja maioria se encontra num avançado estado de degradação, e a sua transformação em unidades hoteleiras de charme, possa criar mais 155 quartos em Lisboa, para clientes exigentes e com dinheiro para o ser. O presidente da Câmara, António Costa, prevê que, após a discussão em Fevereiro do plano "Lisboa, capital do charme" pela Assembleia Municipal, a venda de cada um dos edifícios venha a ocorrer de 15 e 15 dias.
Os futuros hotéis, localizados em bairros históricos são: Palácio Braamcamp no Príncipe Real, Palácio Visconde do Rio Seco no Bairro Alto, Palácio Pancas Palha em Santa Apolónia, Edifício Passo da Procissão do Senhor dos Passos da Graça no Castelo, Palácio Machadinho na Madragoa e Palácio Benagazil nos Olivais. Com a venda deste património, a Câmara espera arrecadar 12,7 milhões.
Apesar da Associação de Turismo de Lisboa (ATL) assumir que o mercado hoteleiro sofreu uma per da de clientes nos últimos três meses na ordem dos 25% e do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Sul ter denunciado a pressão o Lapa Palace - um dos mais conceituados na capital - sobre 40 dos seus funcionários, com vista ao seu despedimento, Costa acredita que o plano é uma das armas para ultrapassar a crise.
"Temos aqui um conjunto de imóveis com importância patrimonial específica. São uma mais-valia importante mesmo nas condições actuais do mercado", disse, ontem, à margem da apresentação do projecto, no Palácio Braamcamp, que até há dois meses servia de sede à Caixa de Previdência e Serviços Sociais dos trabalhadores municipais e que será vendido por 1,4 milhões de euros.
António Costa comprometeu-se a emitir rápidos pareceres sobre os projectos de adaptação dos edifícios. Mas em troca exigiu aos empresários a mesma celeridade na abertura de tais hotéis de charme. "Se não queremos que estes edifícios estejam devolutos na posse da Câmara, também não os queremos devolutos nas mãos dos privados", alertou, no mesmo dia em que o Fórum Cidadania criticou não só a iniciativa como questionou os preços que serão praticados pela "adulteração e destruição do edificado" (ver texto ao lado).
Ao JN, Vítor Costa, director-geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL) adiantou que este organismo irá promover no estrangeiro, através de agências, "Lisboa, capital do charme".
"Incluímos este segmento de "charme" no nosso plano estratégico. Com estas unidades estaremos mais preparados para a retoma com sucesso", adiantou, desvalorizando a crise que o sector atravessa na capital: "Quando estiverem no mercado certamente que a crise já estará ultrapassada". Segundo Vítor Costa o mercado ressentiu-se com a crise verificada em Espanha e no Reino Unido, as principais origens dos ocupantes das unidades na capital.
Ian Duncan, um entre dezenas de empresários presentes naquela operação de charme lançada por Costa, não escondeu, ao JN, o receio em apostar "numa cidade de segunda linha a nível internacional", sem as devidas contrapartidas e parcerias institucionais.
"Os hotéis de 'charme' exigem grande investimento. Tanto na adaptação dos edifícios, como na promoção internacional dessas unidades, já que Lisboa não é uma cidade de primeira linha", explicou o empresário, ex-sócio do Pestana Palace. "Os problemas financeiros 2009 vão piorar, mas estes belos edifícios não deixam ninguém indiferente", frisou, enquanto Aida Morais, funcionária da instituição que ocupava o Braamcamp, se despedia daquelas instalações.
"Durante os 35 anos que aqui estive havia sempre gente a querer visitar este palácio e vista fantástica do miradouro. Se não há dinheiro para o qualificar, acho que esta é melhor solução", disse.

Comentários

APS disse…
Minha boa amiga Susana
è uma vergonha esta alienação do Património Cultural da cidade de Lisboa.
Tenho imensa pena do Palácio do Machadinho que conhecia pessoalmente e já o tinha referido na Rua do Machadinho.
O Palácio Pancas Palha na Rua de Santa Apolónia também conheci e espero, um dia falar da sua Rua.
Acabo de saber que o Convento de Santos-o-Novo (Comendadeiras)foi vendido.
Não existem palavras para esta classificação. Fico por aqui!
Até sempre.
APS
com senso disse…
Curiosamente também eu conheço muito bem o Palácio do Machadinho, que foi maltratado durante décadas e completamente esquecido por todos, tanto pelas autoridades como pelos próprios lisboetas.
Teoricamente estes palácios deveriam ser restaurados e colocados à disposição de todos... contudo penso que o que resultaria é que eles ficaram à disposição da indiferença de quase todos.
Por isso, depois de tantas malfeitorias que lhes foram feitas durante décadas, espero que o seu destino como hoteis de charme tenha sucesso e lhes restitua algum do esplendor que em tempos, há muito idos, tiveram!!!

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