Morreu escritor Alface, autor de “Cá vai Lisboa”

O escritor João Alfacinha da Silva, que assinava sob o pseudónimo de Alface, morreu esta madrugada, num hospital em Lisboa, em consequência de um AVC (acidente vascular cerebral) sofrido ontem, ao fim da tarde, quando participava numa Comunidade de Leitores dedicada ao seu romance, Cá Vai Lisboa. A sessão, animada por Maria João Seixas, e na qual participavam 30 leitores, decorria na Culturgest, em Lisboa.
"Morreu no seu posto, em plena homenagem à sua obra e em plena festa dos seus leitores", disse ao PÚBLICO Maria João Seixas. "Ainda ouviu a reacção de alguns dos leitores, maravilhados que estavam com a descoberta do livro. Os seus dois maiores gostos eram a leitura e a escrita, tinha dito momentos antes". Apesar de "marginal a uma certa academia", a sua obra pertence a "um grande estilista e um grande escritor", disse o seu editor, Vasco Santos, da Fenda.
Alface, que tinha 58 anos, irrompeu no meio literário português em 1977 com Os Lusíadas (Assírio & Alvim), primeiro de uma trilogia que incluiu As Noites Brancas do Papa Negro (1982) e Beijinhos (1996), editados na Fenda. Co-assinados por Manuel Silva Ramos, estes livros constituíram "uma espécie de meditação ficcional sobre Portugal (…) [escrita] ao nível de uma linha joyceana de trabalhar as palavras ao limite, quase na ordem da antileitura", segundo explicou Alface numa entrevista a Maria João Seixas (ver link).
Cuidado com os rapazes e outras histórias, de 1995, já só com a sua assinatura, provocou um incidente algo hilariante com Pedro Santana Lopes. Ao ver a promoção do livro, o então também presidente do Sporting queixou-se de andar a ser ameaçado. Para além de uma série de cinco livros juvenis, que o Círculo de Leitores reuniu em Uma Família Sem Mestre (1992), e de um segundo livro de contos, O Fim das Bichas (1999), escreveu o romance Cá Vai Lisboa (2004), em cuja leitura colectiva participava quando morreu.
A convite da D. Quixote, traduzia neste momento as 900 páginas do romance Les Bienveillantes, do norte-americano Jonathan Litell, que ganhou o prémio Goncourt de 2006.
Após frequentar Direito e Psicologia, cursos que nunca completou, trabalhou no República, Emissora Nacional (onde se tornou amigo de Herberto Helder) e Rádio Comercial; escreveu textos para os programas televisivos Ensaio e Impacto, do produtor João Martins, antes do 25 de Abril; foi um dos fundadores da cooperativa Cinequipa; e coordenou um grupo de argumentistas de telenovelas, na NBP, para a TVI.
Iconoclasta, praticante de um "humor desmanchado" (Maria João Seixas), fez, ainda, publicidade e foi conselheiro sentimental com coluna própria, só lhe faltando "escrever obituários", ironizou na citada entrevista.
Casado com a pintora Gina Frazão, tinha duas filhas e dois netos.
O seu corpo está em câmara ardente na igreja de S. João de Deus, em Lisboa. O corpo segue amanhã às 10h00, para Montemor-o-Novo, terra natal do escritor.

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