Lojas à noite desaparecem do centro de Lisboa

É cada vez mais difícil comprar uma garrafa de vinho para um jantar tardio em Lisboa, ou encontrar jornais ao domingo de manhã. Depois do encerramento de oito lojas de conveniência, em Maio, os lisboetas habituaram-se a ir à bomba de gasolina mais próxima para fazer compras fora de horas. Sinais do fraco dinamismo de uma capital que, confirma o Instituto Nacional de Estatística, perdeu 60 mil habitantes desde o ano 2000.
"O encerramento do comércio à noite prende-se em grande parte com o declínio dos próprios centros urbanos", refere Ana Vieira, secretária-geral da Confederação do Comércio Português. O envelhecimento da população e a concentração das áreas de lazer em zonas delimitadas favorecem o aumento da insegurança, "forçando" as pessoas a ficar em casa, diz a responsável. Também o desenvolvimento "anárquico" dos centros comerciais contribuiu para o desaparecimento desse tipo de comércio. Uma tendência que não se aplica às lojas inseridas em postos de abastecimento de combustíveis, "que têm visto crescer o peso destes produtos - hoje ultrapassa os 20% - no volume global dos postos de abastecimento", refere."O comércio não tem capacidade para sobreviver de dia, muito menos à noite", refere José António Silva, presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP). Os dados fornecidos pela Câmara Municipal de Lisboa revelam que entre 2000 e 2007 Lisboa perdeu um quarto das mercearias, minimercados e supermercados. Existem agora 831 estabelecimentos. Benfica, Campolide e Alcântara concentram um décimo desta oferta. Campo Grande e Castelo são as freguesias menos activas.
O número de lojas de conveniência duplicou no mesmo período, mostra o recenseamento autárquico. Que também revela que os estabelecimentos instalados nos bairros têm vindo a dar lugar às lojas associadas a bombas de gasolina: mais de metade das 30 lojas de conveniência existentes em 2006 estavam integradas em centros comerciais ou postos de abastecimento.
Os dados ainda não reflectem o encerramento, em Maio, dos oito estabelecimentos independentes da marca Sprint, uma rede de lojas localizadas em pontos estratégicos da cidade - as ruas Pedro Álvares Cabral, D. Pedro V, Ferreira Borges, Infante Santo ou Miguel Bombarda. Com a compra do negócio de combustíveis à Shell, em 2004, a Repsol passou a gerir o conjunto de lojas sem estação de serviço Select, as antigas Extra do grupo Pão de Açúcar.
O motivo do encerramento é o mais óbvio: "No seu conjunto, era um negócio que dava prejuízo", refere fonte oficial da empresa. Não era raro encontrar polícias à porta de alguns destes estabelecimentos, que tinham problemas de segurança "normais" - sublinha a mesma fonte - para este tipo de actividade. Já a taxa de crescimento das lojas inseridas em bombas de gasolina - a Repsol gere mais de uma centena, que servem cerca de um milhão de clientes por semana - supera a do negócio de combustíveis. Um facto a que não são alheias "as mudanças dos hábitos de vida": "Encontram-se em localizações mais convenientes, permitem one stop shop, estacionamento e possuem horários alargados." As sinergias geradas entre os diferentes serviços garantem, por outro lado, maior rentabilidade.
Economistas contactados pelo DN concordam que a oferta à noite não existe porque a procura não o justifica, uma situação profundamente ligada à desertificação da cidade. "A sociedade lisboeta não tem o hábito de comprar à noite", diz João César das Neves. Também José António Silva, presidente da CCP, realça que não há "consumidores suficientes para sustentar uma prática generalizada". Ambos referem, contudo, a importância dos custos da legislação laboral como obstáculo à flexibilidade horária.
Já Luís Palha, ex-secretário de Estado do Comércio e director-geral da Jerónimo Martins, arrisca uma posição diferente, ao admitir que o mercado existe e que pode ser rentável. "Não tenho a certeza de que todos os esforços de redução de custos de logística já tenham sido feitos", diz. Há oportunidades que ainda estão explorar. É o caso de zonas de passagem a pé - estações de metro ou de comboios - e de maior animação nocturna.
O Estado e as autarquias podem ter um papel determinante na inversão do declínio do comércio de proximidade, defende José António Silva. "Não existe planeamento comercial. Não há uma entidade reguladora da actividade. O que é que funciona? A especulação imobiliária. Há cidades que começam a atingir os cinco metros quadrados por cada mil habitantes, uma oferta cinco vezes superior à média europeia", diz, defendendo uma maior intervenção através da cedência de licenças. "Vimos os políticos a defender o comércio tradicional, mas não passa de um momento de campanha. A partir daí não existe uma única medida, um gabinete, não existe rigorosamente ninguém que pense esta actividade."

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