Rock In Rio: nova enchente na despedida
Começou esgotado e esgotado terminou. Mais de 350 mil pessoas passaram pelos cinco dias de festival. É verdade que o fenómeno "último dia, última hipótese" ajudou na corrida aos bilhetes, mas não retiremos mérito às bandas: os Muse provocaram uma enchente, os Offspring outra tanta e os Linkin Park souberam reinar sobre a confluência de todos os fluxos, mostrando o quão certeira foi a escolha do seu nome para o fecho da actividade no Palco Mundo do Rock In Rio Lisboa 2008.A imensidão de gente produziu recepções extraordinárias às bandas – e não só no Palco Mundo; o Sunset, por exemplo, foi pequeno para receber a contagiante actuação dos Buraka Som Sistema. Mas essa imensidão, que já de si significa a dificuldade em circular pelo recinto e longas esperas em filas, traduziu-se ontem também na ruptura de "stocks" de vários produtos alimentares, ainda a noite tinha acabado de cair. Tudo encarado com a naturalidade possível pelas mais de 90 mil pessoas que serpenteavam pelo Parque da Bela Vista, com cristas cor-de-rosa, bóias azuis em forma de pato, sofás insufláveis e outros apetrechos oferecidos pelos patrocinadores.
Os Orishas foram os primeiros a subir ao Palco Mundo, já com uma multidão simpática para os ver. A simpatia é, aliás, uma das marcas maiores do grupo de origem cubana (mas sediado em França). É sempre um prazer ver os Orishas debitarem aquele misto de festa exótica, vozes bem sintonizadas, hip-hop e palavras contestatárias. Ficou mais uma boa recordação para os recortes das (muitas) passagens por Portugal.
Os Kaiser Chiefs levaram ao Rock In Rio o melhor do estilo britânico, quando o assunto é rock com potencial dançante e linhas para cantar. A banda de Leeds, que não era propriamente uma das mais aguardadas da noite, atirou logo à cara do Rock In Rio a fama de imparável que Portugal lhe atribuiu noutras ocasiões (primeira parte dos U2, Paredes de Coura). O vocalista Ricky Wilson esteve irrequieto como sempre e contrariou o tom frio da etiqueta britânica com um concerto tão descontraído quanto vibrante, em que a multidão reconheceu e cantou com ele temas como "Everyday I love you less and less", "I predict a riot", "Modern way" ou "Ruby".
Os Muse tinham sobre os ombros uma expectativa desmedida. Culpa toda deles: da Aula Magna ao Campo Pequeno, passando por festivais como o Sudoeste, foram deixando atrás de si um rasto de memórias continuamente excedidas. No Rock In Rio, não foi bem assim. Foi um concerto fabuloso, sem máculas e com alguns momentos épicos. Foi também certeiro nas opções para o alinhamento, destacando o último álbum na mistura de todos. Canções recentes como "Take a bow", "Starlight", "Supermassive black hole" ou "Map of the problematique" (de "Black Holes and Revelations") conviveram em brilhante harmonia com temas mais antigos, como "Time is running out", "New born", "Plug in baby" ou "Feeling good". O concerto só pecou por ser demasiado curto e por, pela primeira vez, não ter conseguido suplantar as expectativas. A Matthew Bellamy, esse genial vocalista, instrumentista e construtor de canções, sobejou talento em palco, mas faltou levar mais longe a capacidade de comunicação que o tornou uma estrela absoluta em palcos como Glastonbury ou a Wembley Arena. Que nada disto impeça, contudo, que os Muse sejam apontados como protagonistas de um dos melhores momentos do dia e do Rock In Rio 2008 em geral.
Se os Muse ganham pelo tom sinfónico e épico, os Offspring marcam pontos noutro campeonato: o das músicas urgentes, a rondar os três minutos, perfeitas para descargas de energia. Era grande a curiosidade sobre a vitalidade da banda liderada por Dexter Holland, depois da acalmia que se seguiu ao fulgor dos anos 90. Primeira conclusão: para o público, foi concerto para avivar a memória e soltar o rebelde que ficou nos tempos de "Bad habit", "All I want", "Come out and play", "The kids aren't alright" e "Self esteem". Segunda conclusão: os Offspring podem ter menos importância hoje, mas continuam bem lançados na corrida dos pesos-pesados do punk-rock. A terceira conclusão fica para depois de uma escuta mais atenta do novo álbum, "Rise and Fall, Rage and Grace", cuja amostra foi bem recebida pelo público saltitante do Rock In Rio.
O nu-metal está a ficar fora de prazo. Avistam-se agora os sobreviventes da vaga. Os Linkin Park vão na liderança. Continuam a mover multidões, continuam a saber renovar a atenção dos fãs e continuam a ser muito competentes e incansáveis ao vivo. Canções como "One step closer", "In the end", "Somewhere I belong", "Breaking the habit", "Shadow of the day" e "What I've done" foram entoadas sem descanso por um público que esteve longe de se resumir a adolescentes. Ficou confirmada a passagem dos Linkin Park para um nível próprio, para lá da etiqueta de sucedâneos dos Korn.Para os mais resistentes, a festa seguiu na Tenda Electrónica. Para os outros, terminou assim a terceira edição lisboeta do Rock In Rio. Ao todo, mais de 350 mil pessoas passaram pelo Parque da Bela Vista em 2008. Em 2010 há mais. Ou daqui a poucas semanas, na versão madrilena do festival.
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