Vinte anos sobre o Chiado a arder
Em 25 de Agosto de 1988, aconteceu um dos grandes incêndios em Lisboa na zona da Baixa . O fogo iniciou-se na Rua do Carmo e propagou-se à Rua Garrett. Muito do comércio tradicional da zona desapareceu, como os Armazéns do Chiado, Jerónimo Martins, Eduardo Martins e outras pequenas lojas e escritórios, alguns já centenários. Dezoito edifícios do século XVIII ficaram completamente destruídos. Cerca de 2.000 pessoas que aí trabalhavam, perderam os seus empregos.
Estiveram envolvidos no combate ao incêndio cerca de 1150 homens e 275 viaturas e os bombeiros tiveram imensas dificuldades para ter acesso às ruas.
Registaram-se duas vítimas mortais e 73 pessoas ficaram feridas ( na sua esmagadora maioria bombeiros).
O Chiado bonito e renovado que vemos agora quando por lá passeamos, é obra do grande arquitecto português Siza Vieira, que recuperou esta zona conservando as fachadas originais.
Para quem não viu de perto a desgraça que se abateu sobre Lisboa neste dia, poderá ver a reportagem de Mário Crespo, emitida pela RTP em directo a 25 de Agosto de 1988, na internet, em www.youtube.com.
Gostaria também de deixar aqui um texto a que não resisti e que descobri no blog da Catarina que vivenciou o incêndio do Chiado de perto. O blog é o valedapalmeira.blogspot.com/ e o texto o que segue:
Acordei com o barulho terrível de bombas e de explosões. Tinha sonhado com guerras e tiros por causa do filme da noite passada. Pensei que estaria ainda a sonhar, mas acabei por despertar com os gritos desesperados da minha mãe. Levantámo-nos da cama, eu e a minha irmã, e seguimos os nossos pais até ao telhado. Ficámos perplexos com o que vimos cair do céu. Uma chuva de fogo, como se um vulcão tivesse brotado das profundezas da Baixa e cuspisse a sua lava, inexplicavelmente, para cima de nós!
Eu não parava de pensar, sufocada, que aquilo era um pesadelo incrivelmente verdadeiro... um incêndio gigantesco e bem real...
Desesperados e atrapalhados, corremos à varanda do 4ºandar para ter certeza do que se passava na rua. Das águas furtadas, apenas poderíamos imaginar, através do que víamos no céu. Vimos, então, ao fundo do nosso lado da rua, o reflexo das chamas, nas janelas de um prédio da Rua do Carmo. Com a curva dos Armazéns do Chiado, não conseguíamos ver o fogo, onde ele deflagrava. O desespero surpreendeu-nos porque nunca supomos, que um dia, a zona onde vivemos vai ser consumida pelas chamas. Chorávamos os quatro, de medo, de insegurança, de choque. Quando ouvimos os bombeiros, descansámos um pouco mais, pensámos que eles resolveriam a situação e que impediriam o fogo de alastrar para a nossa rua. Mas, nós estávamos enganados. Estupidamente enganados. O que avistávamos ao longe, nas janelas do prédio da esquina, não era o reflexo das chamas nos Grandes Armazéns do Chiado e no Grandella, era o fogo. O fogo que queimava já o “outro” lado da rua.
As explosões continuavam a ouvir-se. O cheiro do incêndio era insuportável, e o meu coração não parava quieto dentro do peito. Decidimos, então, parar de nos lamuriar, e agimos. Os meus pais reuniram algumas das coisas mais valiosas que tínhamos, e mandaram-nos, a mim e à minha irmã, embora. Eram cerca de cinco e meia da manhã quando saímos para a rua, as duas, sozinhas, pensando que nunca mais voltaríamos a ver a nossa casa. Os meus pais, não sei se estupidamente, se heroicamente, ficaram. Precisavam de defender o telhado das labaredas que caíam, com mantas, cobertores e tapetes encharcados com água. Avisaram vizinhos de outros prédios para fazerem o mesmo, porque o fogo que caía, das explosões, poderia provocar outros focos de incêndio, e se o fogo alastrasse para o Tribunal da Boa-Hora, a tragédia seria incalculável.
Não havia luz na cidade. Eu e a minha irmã caminhávamos às escuras, pelas ruas de Lisboa, com muito medo. Quando passámos pela Rua do Ouro, vimos o Grandella devorado pelas chamas. Um edifício que me era tão querido! Tal como os Armazéns do Chiado, o Grandella era como um castelo encantado, cheio de lojas de brinquedos, escadas rolantes, cores, retalhos, brilho... E agora, o fogo odioso que o consumia. O contraste terrivelmente majestoso entre o vermelho do fogo e o
escuro da noite. Jamais esquecerei essa imagem. Pensar que a minha casa se poderia transformar num inferno como aquele. Era como se eu própria ardesse por dentro.
escuro da noite. Jamais esquecerei essa imagem. Pensar que a minha casa se poderia transformar num inferno como aquele. Era como se eu própria ardesse por dentro.Chegámos finalmente a casa de um casal amigo da nossa família (que nos deu abrigo por uns dias), em São Cristóvão, perto do Castelo de São Jorge, de onde fomos observar o incêndio. Fechava os olhos de cansaço e pessimismo. Nunca na vida me sentira tão fraca e impotente. Estava muito confusa. Não queria acreditar que ia perder tudo o que tinha!
Após algumas horas de desespero, o Chiado continuava a arder e os Bombeiros não conseguiam dominar a situação. O vento estava muito forte, empurrava o fogo na direcção da minha casa, do Tribunal. A manhã já ia alta, não havia maneira de parar o maldito incêndio, que consumia, em minutos, cada janelinha dos Grandes Armazéns. Os meus pais foram ordenados a sair pela Polícia, antes que ficassem enclausurados pelo fogo. Juntaram-se a nós, mais tarde, trazendo com eles a nossa cadela, que estava muito agitada.
O choro dos meus pais convencia-nos que o pior podia vir a acontecer. A esperança era um sentimento quase morto, quando o melhor a fazer nestas situações é conformarmo-nos. Mas, não, não podia ser! Não me podia conformar daquela maneira! Não era do meu feitio perder a esperança! Então, pensei que a única coisa que podia fazer era rezar à Natureza, com toda a força do meu coração, que apagasse o fogo, que mandasse chuva, que parasse o vento. Eu tinha onze anos e a perfeita consciência de que o que eu pedia era praticamente impossível. Os Bombeiros estavam exaustos, pensava eu. Lisboa inteira pedia um milagre.
Por volta do meio-dia, mais ou menos, o fogo cessou. Soube depois que o vento tinha mudado de direcção, ou algo parecido. Sem a força do vento, os Bombeiros conseguiram apagar o fogo nas Escadinhas de São Francisco, e o incêndio não prosseguiu na direcção do meu prédio, a apenas uns metros de distância.
Não sei se devo acreditar em milagres, porque morreram duas pessoas, e muita gente ficou sem emprego, outros sem casa. Talvez o milagre tivesse sido o facto do fogo não ter chegado ao Tribunal, uma possível fornalha gigantesca que não cessaria de arder nem à força de todos os Bombeiros de Lisboa e arredores.
O Incêndio do Chiado passou a ser um conto na minha vida. Uma história real. Um trauma. Uma imagem mista de horror e esperança. Uma experiência que nos ensina a olhar as coisas com amor e admiração, porque elas são passageiras, desaparecem com o tempo, com a indiferença, por vezes, com o fogo. Aprendi a apreciar o bairro onde cresci quando dei pela falta dele, desmanchado num buraco preto e queimado. Não admira que dedique a minha obra, a minha vida, ao Chiado, ao meu Vale da Palmeira, ao tempo que corre e assiste à mudança dos espaços, das pessoas. À História, que é a razão de ser da memória, do imaginário.
Tenho como exemplos da loucura dos bravos de Lisboa, estes Bombeiros que tudo fizeram para salvar o Chiado, o coração da cidade. Os meus pais, de uma loucura inteligente, corajosa, que não se entregaram ao pânico e fizeram o que o bom senso lhes ditou.
Mas, nem sempre os loucos que por aí andam são exemplos tão destemidos, flagrantes. Para mim, são como os edifícios que eu passei a olhar de maneira diferente. São os rostos de uma Lisboa anónima, um livro de contos entreaberto. Um gesto de esperança em cada página.»

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