A desconstrução da 'Gata Borralheira' por Robert Walser hoje na Culturgest

A Culturgest estreia quinta-feira em Lisboa a peça de teatro «Gata Borralheira», de Robert Walser. Um espectáculo que «questiona os valores dos contos de fadas», afirmou o encenador Ricardo Aibéo.
Esta peça, que abre a nova temporada da Culturgest, não inclui alguns dos elementos do conto tradicional criado por Charles Perrault, como a madrasta ou a fada.
O espectáculo «põe em causa os clichés e repensa os valores muito presentes nestas histórias», afirmou o actor e encenador.
«Uma das graças do texto é o facto de corromper o conto original, de questionar o que é um final feliz», explicou Aibéo, que na peça encarna a figura do Príncipe.
Em palco, o cenário é gráfico e depurado, com os elementos - uma moldura, um recorte de uma árvore, uma janela e duas escadas - a serem movimentados em cena pelos próprios actores.
Ao lado de Aibéo e de Sofia Marques (Gata Borralheira), contracenam Cláudio da Silva (O Conto), David Almeida (Bobo/Rei) e Andrea Soares e Lígia Soares (as irmãs más).
Nesta sua quarta experiência na encenação, Ricardo Aibéo admitiu ter sido complicado «apanhar o tom do peça, porque quando se lê ela é poética e bonita».
«O texto - adiantou - vive de palavras, toda a imaginação da peça passa-se ao nível da palavra e isso foi difícil de pôr em corpos vivos».
Rompendo com os lugares-comuns dos encontros amorosos e finais felizes dos contos de fadas, a peça «Gata Borralheira» é feita de alguns diálogos, mas sobretudo de monólogos, como se «as personagens falassem em voz alta».
"É muito estranha", começa por dizer Sofia Marques, sobre a sua personagem. "É o contrário da Gata Borralheira que eu conheço", garante a actriz. "É uma oportunidade de aceder ao seu universo mental, de tentar perceber o que sente e o que quer".
Apesar do condão da consciência, as personagens continuam prisioneiras de um conto. "Princípio, meio e fim são coisas tão deslocadas que nenhuma cabeça as compreendeu, nenhum coração as sentiu", desespera, a certa altura, a personagem de Sofia Marques.
«Gata Borralheira», que se estreia quinta-feira no grande auditório da Culturgest, terá no total seis apresentações até ao dia 20, sendo a última, já esgotada, destinada aos alunos do segundo ciclo.
Sem saber ao certo como será a recepção dos mais novos a esta versão da Gata Borralheira, Aibéo afirmou que esta é, pelo menos, «uma forma de os incentivar a pôr em causa o que já está pré-estabelecido» nos contos de fada.
No sábado, dia 16, antes do espectáculo, haverá um «Passeio com Robert Walser», uma conversa sobre a obra do autor suíço do início do século XX na qual participarão Ricardo Aibéo e os escritores Gonçalo M. Tavares e Alexandre Andrade.
Depois de Lisboa, a peça segue numa pequena itinerância por Viseu (dias 29 e 30), Torres Vedras (06 de Outubro), Almeirim (14 de Outubro), Alcobaça (01 de Novembro) e Baixa da Banheira (04 de Novembro).
Walser nasceu em Bienne, cantão de Berna, em Abril de 1878, e a sua obra literária cativou a atenção de autores como Kafka, Robert Musil e Elias Canetti.
Escreveu inúmeros títulos de ficção e teatro, alguns dos quais traduzidos em português: «O salteador», «A rosa», «Jakob von Gunten», «O ajudante», «O passeio e outras histórias» e «Gata Borralheira/Branca de Neve/Bela adormecida» (teatro). A segunda destas três peças (Branca de Neve) citadas foi levada ao cinema pelo realizador português João César Monteiro.

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