Um sonho que comanda a vida das colinas de Lisboa à beira-rio

Levaram-nos ao Chapitô os 25 anos que festejou ao longo de 2006, com vista ao ponto da situação presente da sua actividade social, formativa e cultural. Voltámos com o horizonte aberto ao futuro: até final do ano, Teresa Ricou, a mulher-palhaço Teté e alma mater da instituição lisboeta, espera que o projecto - nascido em Santa Catarina e transferido em 1986 para a morada actual na Costa do Castelo - dê outro passo, a desdobrar as insuficientes instalações para espaço mais amplo, num armazém das docas de Santos.
Objectivos enunciados: "Consolidar cada vez mais o projecto, para poder dar o salto para o Chapitô Rio [designação do novo espaço], talvez em finais do ano, num barracão do Porto de Lisboa, a recuperar, para duplicar o espaço", explica Teresa Ricou ao DN. Nessas instalações, exemplifica, haverá outra vertente de ensino artístico, com "escola de música rock e concertos", sob orientação de Zé Pedro (Xutos e Pontapés) e também passa para lá "o quarto ano do curso"; haverá ainda outra "sala de teatro, é preciso uma maior, deve ter aí o dobro do tamanho [da actual]" e duas zonas para "espectáculos dedicados à infância". Ali serão instalados, ainda, biblioteca e Museu do Humor e do Riso, com o "espólio de velhos artistas, reunido há anos".
Reinserção social com arte
Esse é, em linhas gerais, o novo projecto. O actual funciona com 120 pessoas, 30 delas professores, mais educadoras, assistentes sociais, pessoal da produção audiovisual, de manutenção dos ateliês de tempos livres (ATL) e da biblioteca e guardas. Existe ainda a Companhia de Teatro e tudo isso nas instalações aprazíveis - com vista soberba sobre a cidade, Tejo e Margem Sul - dum edifífio do Ministério da Justiça recuperado.
Além da Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo (EPAOE), dos ateliês e cursos livres ao fim do dia, o espaço inclui tenda/chapitô/sala de espectáculo, esplanada, restaurante (Restô) e bar (Bartô) aberto à noite - um local polivalente.
Financiada pelo Fundo Social Europeu, a EPAOE, que confere habilitações equiparadas ao 12.º ano, funciona desde 1991 nesta associação cultural sem fins lucrativos e com vários estatutos, de ONG a IPSS (instituição privada de solidariedade social). A matriz é de intervenção e integração social através das artes, trabalhando directamente com jovens dos colégios tutelados pelo Ministério da Justiça.
Uma casa da cultura
Nos anos 70, vinda de França, onde demandara o seu sonho de ser palhaça, com a formação específica e a prática social adquiridas, Teresa Ricou trazia "a escola toda das Maisons de la Culture", que lutou para aplicar aqui. Embora o Chapitô não seja organismo autárquico como as maisons, continua a considerar que "isto [o Chapitô] é uma casa da cultura, que pensei enquanto tal". Tudo começou na casa onde continua a morar, como Colectividade de Santa Catarina; criou a Escola de Circo Mariano Franco; teve actividades no Bairro Alto, no Centro de Dia de Idosos, que animou com o acordeonista Michel. "Fazíamos formação em acção", lembra. À partida, "o investimento foi pessoal".
E para o Chapitô Rio, com que meios contará? "Ainda há coisas no segredo dos deuses e nem sei bem..." Teresa Ricou hesita, adianta que "há gente interessada em partilhar [encargos] com parcerias". Por aí não se fica a saber mais, mas sabe-se, pelo caminho andado, que sempre levou a água ao moinho dos seus sonhos, acreditando neles e com eles, contagiando quem a rodeia.

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