Lisboa-poema, Lisboa-melodia, Lisboa-cinema
No Rick's Cafe, nessa Casablanca de papelão feita em Hollywood, toda a gente falava numa cidade-esperança: Lisboa. Ou lisboas, que cada um fantasia a cidade como quer, como gosta.Eis uma dúzia - que é sempre quantia curta se se fala de sardinhas ou gaivotas, caravelas ou cacilheiros, manjericos ou moedas, telas de Carlos Botelho ou versos de Fernando Pessoa. E, no entanto, doze escolhas chegam para traçar um bom caleidoscópio dos imaginários que podem povoar a capital. E, assim, obter uma espécie de "livro de bordo", para roubar a expressão a José Cardoso Pires, esse escritor que foi recriando a sua Lísbia a cada livro, como Cesário Verde o fez em tanto poema.Há uma Lisboa-memória. Os volumes em livro de Lisboa Desaparecida, de Marina Tavares Dias, ou o Dicionário de História de Lisboa, coordenado por Francisco Santana e Eduardo Sucena, são apenas dois exemplos da vasta bibliografia olissiponense.
E, assim como há uma Lisboa-lendária, a da cidade fundada por Ulisses, esse herói que Homero imortalizou na Odisseia, também há uma Lisboa-ironia, pois escolher A Divina Comédia, de Dante, é assumir que a capital está cheia de Mefistófeles. Podia também falar-se num Lisboa- -olhar estrangeiro, com uma escolha sempre a multiplicar-se.
E há, pelo menos, umas três Lisboas-Amália. A Amália-poema, de Alexandre O'Neill (Gaivota) e de David Mourão-Ferreira (Maria Lisboa); a Amália-melodia (do compositor Alain Oulman); a Amália-popular (Cheira a Lisboa surgiu no teatro de revista e na voz de Anita Guerreiro).
Aquém e além-fado, também uma Lisboa-outras músicas, de Recado a Lisboa, na voz de João Villaret e com música de Armando da Câmara Rodrigues, a Memórias de um Beijo (Lembras-me uma Marcha de Lisboa), que os Trovante gravaram num dos seus discos de maior êxito, o Terra Firme.E a "cidade branca", como a baptizou o realizador suíço Alain Tanner, é também Lisboa-cinema. A preto e branco, capaz de encantar gerações portuguesas, como no filme de Cottinelli Telmo, A Canção de Lisboa. A cores e cheia de sons, para além da música dos Madredeus, como a conhece o mundo cinéfilo que aprecia Wim Wenders, o autor de Lisbon Story.
Numa cidade tão bem descrita na literatura, de Fernão Lopes a Lobo Antunes, não poderia faltar a Lisboa-romance, de que é exemplo Um Milagre segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis.
E, afinal, quando é que parte para a cidade que até é nome de escritores (Irene Lisboa, Eugénio Lisboa) o avião com a Ingrid Bergman e sem o Humphrey Bogart? A cada um, o seu imaginário.
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