Alcântara - uma ponte de culturas

“Nas docas, as velhas fragatas e as canoas foram substituídas por veleiros e iates e os antigos armazéns do peixe recebem, agora, a visita dos noctívagos da Capital. Mas, pelas vielas mais interiores, a Alcântara castiça – do Tejo e do Fado – continua a tentar resistir”.
“Uma “ponte” tinha de marcar o destino deste populoso bairro lisboeta. Na verdade, o seu nome vem do árabe e “Alcântara” significa ponte. Essa tal ponte fazia a ligação entre duas margens de uma ribeira que corria sob o que hoje é a Avenida de Ceuta, desaguando no Tejo. Curiosamente, nos nossos dias, Alcântara é marcada por uma outra ponte: a 25 de Abril. Alcântara foi local da batalha perdida por D. António Prior do Crato, contra as tropas castelhanas, em 1580. E foi, a partir do início da expansão ultramarina, lugar procurado pelos monarcas e fidalgos. Primeiro como ponto de passagem para Belém. Mais tarde, porque acham ali locais privilegiados para casas de campo e centro de caçadas. Foram, então, surgindo os principais edifícios do sítio que viria a ser o bairro popular e operário que conhecemos. Foi o caso do palácio real (no Calvário), da Igreja das Flamengas, dos conventos do Calvário e do Livramento, da belíssima Capela de Santo Amaro, assim como o Palácio das Necessidades.
Alcântara, cujas águas cristalinas terão atraído os povoadores, estava repleta de hortas, azenhas e sulcada de vinhedos. A Revolução Industrial trouxe-lhe a implantação de fábricas e de muitas habitações para os respectivos trabalhadores, transformando Alcântara num bairro operário e marinheiro. Ali se instalou uma das primeiras escolas industriais do país, a “Marquês de Pombal”. Também ali a rainha D. Amélia criou um dispensário, a partir do qual se iniciou a campanha contra a tuberculose em Portugal”.

Alcântara remonta a sua existência a 8 de Abril de 1770. A freguesia era então denominada de S. Pedro em Alcântara. Sabe-se que a sua instalação já havia sido ordenada em 11 de Fevereiro do mesmo ano, tendo o bispo de Lisboa determinado que se transferisse para Alcântara o orago da antiga freguesia de S. Pedro, estabelecida no lado oriental da cidade e cujo templo ruíra com o terramoto de 1755. Após a mudança do regime político, a partir de 24 de Agosto de 1912, a freguesia civil passou a designar-se oficialmente pelo simples nome de Alcântara. A primitiva povoação de Alcântara, com a sua área povoada de casas e gentes, não deve ir muito além dos finais do século XVI. Antes disso, o actual perímetro da freguesia resumia-se, provavelmente, a algum casario disperso entre quintas, a um ou outro aglomerado em certo lanço de caminho, ou às casas nobres que por aqui haveria, levantadas à sombra dos conventos. Só em 1608 Alcântara aparece como um “logar”, dependendo, com Belém, do “bairro” de Nossa Senhora da Ajuda. Foi o terramoto de 1755 que contribuiu para a constituição bairrista de Alcântara. O cataclismo forçou o descongestionamento da cidade e a construção de novos bairros, entre eles o de Alcântara. Mas o maior impulso no povoamento dos terrenos das duas margens da ribeira de Alcântara deram-no os quarenta anos do reinado de D. João V. Em 1820, a freguesia aparece definida entre as 41 da cidade, dependendo do bairro de Belém, seis anos depois integrada no de Mocambo, para em 1833 voltar a integrar-se, autónoma, no bairro de Belém. Em 1852, Alcântara aparece fazendo parte do 4º Bairro Administrativo de Lisboa. Alcântara foi sempre e essencialmente um bairro de gente humilde, boa e sã, mourejadores honrados na busca do pão de cada dia. Considerada como arrabalde de Lisboa desde o século XVI, foi a pouco e pouco vendo desaparecer as suas inúmeras quintas e hortas, circundadas por velhos caminhos e azinhagas, que originaram novas ruas, travessas e calçadas. Era ridente o lugar, atravessado pela ribeira, bastante larga, de caudalosa corrente, com as belas quintas de recreio alindando as margens e os pontos elevados. Desde o final do século XVIII e no século XIX, Alcântara teve uma acentuada industrialização localizando-se muitas unidades fabris, de curtumes, de lanifícios e de estamparia, no Vale de Alcântara, aproveitando as águas da sua ribeira. Também no Alvito, no Calvário, em Santo Amaro e na Junqueira havia muitas fábricas ligadas à indústria química (sabões, óleos, margarinas, adubos, etc.), à indústria alimentar (moagens, chocolates, bolachas, açucar, etc.) à indústria metalomecânica, à indústria da pólvora e da extracção de cal, etc. A sua forte industrialização e um vigoroso movimento operário e associativo, tornaram Alcântara um dos mais fortes baluartes republicanos do início deste século.
Como lembra Mário Costa, ao falar-se de Alcântara pensa-se de imediato no que de mais típico e castiço se abrigou nos seus limites e lhe deu um carácter inconfundível de colorido flagrante. Esse carácter e esse colorido disputou-os Alcântara à velha Alfama, tornando-se bairro marinheiro. Em Alcântara se arregimentaram os continuadores dos mareantes das naus e caravelas que vogaram em demanda do desconhecido. E aí, em Alcântara, se vincularam os marujos desde 1865 a 1934, transmitindo uma alegria buliçosa aos principais largos e becos do sítio. Muitos deles preenchiam as noites em descantes de grande sabor popular, pondo em exaltação os fados mais tristes e fatalistas, talvez na sonhadora evocação das horas infindas vividas sobre os mares e oceanos. Evocação que nunca poderá passar em claro quando se fala de Alcântara, é a da célebre batalha ali travada, a 25 de Agosto de 1580, entre as tropas de Filipe II, sob o comando do duque de Alba, e as milícias de Lisboa, improvisadas umas semanas antes pelos partidários de D. António Prior do Crato.
Santo Amaro, com o troço da Rua da Junqueira que termina na Calçada da Boa Hora, forma o extremo ocidental da freguesia de Alcântara. Tem nomeada desde que 14 freires da Ordem de Cristo, na volta de uma peregrinação a S. João de Latrão, em Roma, aportaram junto a uns rochedos, nas faldas do monte que já tinham avistado do mar. Decorria o ano de 1532. Governava o reino D. João III. Os peregrinos traziam em mente o voto que haviam feito, em pleno alto mar, quando se viram assolados por furiosa tempestade, de levantar um templo religioso no sítio em que fizessem o desembarque. A primeira capela ergueu-se em 1542, com a autorização do Papa Paulo III, e deu lugar ao actual templo que se vê bem no alto do morro, desafiando o tempo e as intempéries e servindo de ponto de referência e observação aos viajantes curiosos que entram a barra em demanda do porto de Lisboa. Data de 1549, no seu estilo renascença, com uma configuração invulgar e arquitectura atraente. Tem lindíssimos azulejos e maravilhoso lavatório na sacristia. Aí se formou a Real Confraria do Bem Aventurado Santo Amaro de Alcântara, da qual fizeram parte reis, príncipes, patriarcas, a mais alta nobreza e categorizados dignitários da Corte. Todos os anos se festejava, com grande pompa, o Santo Taumaturgo, e na cerimónia inaugural, a 15 de Janeiro, para o que era contratada uma boa orquestra, tomava parte um pregador de fama. Tinha sempre a presença do Senhor Patriarca, assistindo os monarcas reinantes que eram provedores natos da Confraria. Na Calçada de Santo Amaro ergue-se o Palácio Ferreira Pinto Basto, do século XIX, com a fachada coberta de vinha virgem, hoje sede de uma metalomecânica. É um dos vários palácios e casas nobres existentes no termo desta freguesia. Destaquem-se alguns. O Palácio dos Condes de Sabugosa, do século XVI, onde Eça de Queirós se inspirou para descrever o “Ramalhete” de “Os Maias”. Em frente, na estação da Carris, ficava o Palácio dos Condes da Ponte. No palácio dos Condes de Valle-Flor (Nicolau Bigaglia, 1902), os jardins estão classificados, o que não impediu a aprovação de um hotel com 200 quartos para o local. Não muito longe dali, funcionou o antigo cinema Palatino. Na Rua da Junqueira levanta-se o Palácio Burnay, refeito no século passado (de admirar os jardins, os frescos do átrio em “trompe-l’oeil” e as magníficas salas do andar superior), e que alberga hoje o Instituto de Ciências Sociais e Políticas. Na Rua 1.º de Maio existe um discreto edifício rosa que é, afinal, a Igreja e Convento de Nossa Senhora da Quietação ou das Flamengas. Destaque para o pátio interior, a sacristia e a sala do capítulo. Fundado em 1582-86 por Filipe II para acolher as freiras fugidas das lutas religiosas na Flandres, após a extinção das ordens religiosas foi local de recolhimento de desvalidos. Aqui casou D. Pedro II com a cunhada e aqui foi enterrado o seu coração. Quase em frente ergue-se o edifício do antigo Convento do Monte do Calvário, de 1618 e reconstruído no século seguinte, que alberga hoje a Escola Superior da Polícia. Outro local de visita será a Tapada da Ajuda, cujo perímetro se estende entre as freguesias de Alcântara e de Ajuda. Existia já na segunda metade do século XVII, mas só no tempo do Marquês de Pombal foram plantadas novas árvores e introduzidos animais para que D. José tivesse, em Lisboa, local onde caçar. Ao sair, na Calçada da Tapada, fica a Igreja Matriz de S. Pedro de Alcântara, de 1780, cuja originalidade reside na planta em cruz latina: a haste superior é o corpo da igreja, as laterais fazem o transepto. Digno de ser vista é a zona ribeirinha, desde a Doca de Alcântara até Belém, com os seus restaurantes, bares e discotecas muito frequentadas à noite especialmente pela juventude.

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