Calçada na avenida
A arte de calcetar remonta aos primórdios da História. A durabilidade, resistência, regularidade da superfície e facilidade de manutenção da higiene, para além da beleza estética, fizeram recair sobre os materiais rochosos a preferência da construção, nas várias épocas históricas.Em Portugal, foram os romanos que nos deixaram um legado maior nesta arte, já que eram feitas em calçada a maior parte das vias de comunicação que ligavam o Império, e que abrilhantava os interiores dos palácios e das casas, com magníficos mosaicos. Mais tarde, também os árabes nos deixaram uma bela herança na arte de calcetar.
Um grande impulso na calçada foi dado após o Renascimento, nomeadamente com a reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755.
Porém, os trabalhos iniciais de calcetagem (tal como hoje a entendemos) datam do fim do século XIX e início do século XX, quando ainda eram executados por presos, também conhecidos como “grilhetas”,
precisamente por as arrastarem pelas ruas num triste espectáculo, que chocava os lisboetas.Em 1927, foi criado o quadro dos calceteiros-artistas na Câmara de Lisboa, com cerca de 400 artistas. Hoje, encontra-se reduzido a um décimo…
A calçada portuguesa, também chamada de “vidraço”, é um determinado tipo de revestimento de piso, utilizado especialmente na pavimentação de calçadas e de espaços públicos, de uma forma geral. Consiste de perdas de formato irregular, geralmente de calcário, que podem ser utilizadas para formar padrões decorativos pelo contraste entre as pedras de distintas cores; sendo que as mais utilizadas são o branco e o preto, embora também haja castanhas e vermelhas. Em certas regiões do Brasil, é mesmo possível encontrar pedras em azul e verde.
Os padrões intrincados que podemos observar são o resultado paciente do duro e monótono trabalho de assentar os moldes dos padrões, contornados com pedra de uma cor, sendo depois levantados e enchidos os vazios com uma pedra da cor contrastante.
Este tipo de calçada é amplamente utilizado no calcetamento de muitas cidades do país; bem como noutros países, que sofreram a influência
portuguesa, tais como o Brasil e Macau, e não pode deixar de ser considerada como uma verdadeira manifestação da nossa cultura, e é como tal que é reconhecida e apreciada mundialmente.Nomeadamente, na Avenida da Liberdade, tem-se a sensação de caminhar sobre um grande tapete empedrado, de grandes florões, e onde ainda é visível a separação entre o padrão do antigo passeio público, e os mais recentes, a norte do cruzamento da Praça da Alegria / Rua das Pretas.
Nos belos e intrincados motivos que adornam os passeios de Lisboa, de vez em quando, esforçando um bocadinho o olho para prestar atenção aos pormenores, vemos algo que escapa ao padrão que se repete quarteirão a quarteirão. Algo que destoa, mas que definitivamente, não é engano. São as assinaturas dos anónimos mestres calceteiros.
Avenida da Liberdade acima (e de preferência pelo lanço ajardinado do lado esquerdo), os nossos olhos são constantemente assaltados por pequenos motivos. Onde o molde dizia um simples enchimento a negro ou branco de uma bola ou de um losango, apareceram os mais variados motivos. Onde devia estar um círculo a negro, aparece um cacho de uvas, uma Cruz de Cristo a evocar o glorioso passado das Descobertas, e até uma estrela de David.
No centro dos losangos brancos aparecem a negro, aqui uma flor, ali uma estrela, um pássaro, um boi. Mais difíceis de ver são as cruzes brancas, no centro desses losangos.Em frente ao cinema S. Jorge, no meio do sol cinzento, uma cara ri-se para nós. Este motivo não se repete nunca mais. O mestre calceteiro que tratou daquele local esculpiu as pequenas pedras brancas que fazem os olhos, o nariz e a boca desse sol.
Porém, estas assinaturas anónimas – que foram colocadas por toda a cidade pelos mestres calceteiros para verem a sua arte reconhecida, quer por picardia com os seus pares, quer para mostrar a quem passa que há mais mundos na calçada – estão em vias de extinção. Isto porque obras e buracos se sucedem, bem como o crescimento desregrado de objectos que ocupam o espaço público. As empresas já reproduzem o padrão das calçadas nas tampas das valas técnicas, para evitar dissonâncias. É preciso que, da mesma forma, se comecem a preservar estas assinaturas anónimas, que dão o carácter pessoal aos cantos da cidade.
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