A fé move montanhas...e milhares de pessoas...porque é ela que nos move

Cerca de 300 agentes da PSP garantiram a segurança da Imagem de Nossa Senhora de Fátima e dos mais de 250 mil peregrinos esperados em Lisboa e Almada para as celebrações dos 50 anos do Cristo-Rei.
Segundo fonte da Direcção Nacional da PSP, estiveram em acção elementos das esquadras dos comandos de Lisboa e Setúbal da PSP, bem como agentes à civil ligados à investigação criminal, que tinham como principal missão impedir a actuação de carteiristas e evitar o pequeno furto do interior de viaturas. A Unidade Especial de Polícia, que agrupa a elite musculada da PSP, também esteve mobilizada, com equipas de Inactivação de Explosivos, agentes do Corpo de Intervenção e atiradores especiais (snipers) do GOE colocados estrategicamente em ambas as margens do Tejo.
A Imagem de Nossa Senhora, que esteve presente há cinquenta anos na inauguração do Cristo-Rei, concentra todas as atenções, obrigando a especial segurança.
A guarda a Nossa Senhora começou quando saiu do Santuário. Depois de uma pequena celebração, com oração de despedida, foi guardada num estojo próprio e transportada num carro da Associação dos Servitas. A viatura, escoltada pela GNR, saiu da Capelinha para junto da Casa de Nossa Senhora das Dores, onde estava o dispositivo policial, e daí para a A1, em direcção a Lisboa. A imagem regressou domingo à noite à Cova da Iria.
IMAGEM EM VISITA A LOCAL DE MILAGRES
O Hospital D. Estefânia e a Igreja dos Anjos acolheram a Imagem de Nossa Senhora de Fátima antes das celebrações no Cristo-Rei. 'São dois locais simbólicos do culto de Fátima, pois no hospital faleceu a vidente Jacinta, a 20 de Fevereiro de 1920, com nove anos, vítima de febre pneumónica, e na igreja foi velada nos quatro dias seguintes', explicou o padre da capela da Estefânia, Carlos Azevedo.
O sacerdote explicou que aquando da chegada da Imagem de Nossa Senhora realizou 'uma oração de gratidão por este ser um local abençoado e onde diariamente é observado o milagre da vida, na dedicação dos pais aos filhos'.
Carlos Azevedo precisou que no hospital não existem objectos que recordem a beata: 'Diversos bens da menina foram guardados no convento das Irmãs Clarissas do Desagravo de Lisboa, onde Jacinta esteve antes de ser internada na Estefânia.'
Na Igreja dos Anjos, o padre José Rocha recordou os relatos da época, segundo os quais se juntaram muitas pessoas na igreja aquando do velório, o que obrigou a que se resguardasse o corpo da vidente no primeiro andar'. Na sua oração, o padre recordou a importância da oração e da penitência'. O Cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, classificou o Cristo-Rei de símbolo de um povo que sabe que Deus o protege'.

ANJOS FIEL A PASTORINHOS
Lisboa preparou-se para render homenagem aos Pastorinhos, aquando da deslocação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima à capital. Na Igreja dos Anjos, onde foi velada a beata Jacinta, a presença de imagens dos Pastorinhos é recente e só surgiu porque os turistas perguntavam pelos beatos. A paroquiana Maria Rosa Felicíssimo decidiu então ir a Fátima comprar as imagens de Jacinta e Francisco. 'Infelizmente', disse, 'a imagem do beato esteve poucos dias na igreja, pois alguém a levou'.

VIAGEM A 10KM/H
A viagem no ‘Dragão’, que transporta a Imagem da Capelinha das Aparições entre a doca da Marinha e Cacilhas, foi feita à velocidade de 6 nós (10 km/h). A bordo estiveram o almirante CEMA, o comandante naval, os autarcas de Lisboa e de Setúbal, o Cardeal-patriarca e o bispo de Setúbal.
PROGRAMA
LISBOA
Sábado, 16 de Maio
11h00 Visita de Imagem Nossa Senhora de Fátima aos Doentes Hospital Dona Estefânia
11h30 Memória de Jacinta – passagem pela Igreja Paroquial dos Anjos
12h00 Chegada da Imagem de Nossa Senhora – Tempo de Oração Igreja de São Nicolau
14h00 Concentração da multidão Praça do Comércio
15h30 Recepção a Nossa Senhora e recitação do Terço Praça do Comércio
17h00 Missa presidida pelo Cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo Praça do Comércio
19h00 Cortejo de embarcações no Tejo, acompanhando a Imagem de Nossa Senhora para Almada Rio Tejo
ALMADA
Sábado, 16 de Maio
20h00 Procissão das Velas – Cacilhas
22h00 Vigília nocturna Igreja Paroquial de Almada
domingo, 17 de Maio
10h00 Missa presidida pelo bispo de Setúbal, D. Gilberto Reis Igreja Paroquial de Almada
11h00 Visita da Imagem de Nossa Senhora à Associação Vale de Acór, Almada
12h00 Tempo de Oração Seminário de Almada
13h30 Com Nossa Senhora e Relíquias de Santa Margarida, a caminho de Cristo-Rei, procissão nas ruas de Almada
16h00 Celebração Aniversária do Cinquentenário, presidida pelo Enviado Especial de Sua Santidade o Papa Bento XVI, cardeal D. José Saraiva Martins, Santuário de Cristo-Rei

MAIS MIRADOURO DO QUE SANTUÁRIO
Ao longo de meio século, o Cristo-Rei terá sido visitado por 20 milhões de pessoas, à ordem de 400 mil por ano. Mas apenas 6 milhões subiram até ao terraço. Dos 120 mil visitantes que anualmente utilizam o elevador para chegar mais perto da imagem, 90 mil são portugueses.
Os números, fornecidos pelo próprio Santuário, traduzem o pouco interesse nacional pelo monumento. E mostram que, por ano e em média, em cada mil portugueses, apenas nove sobe os 72 metros de elevador até à capela. Um número que a Igreja gostaria de ver aumentado para tentar saldar as dívidas do Santuário, que ascendem ao milhão de euros.
Sezinando Alberto, reitor do santuário reconhece que, para muitos portugueses, este não representa um local de devoção mas apenas um miradouro sobre a capital. É precisamente para inverter esta perspectiva e recuperar os princípios espirituais que estiveram na origem da sua construção, que o Patriarcado de Lisboa e a diocese Setúbal investiram tanto nas comemorações do seu cinquentenário que se realizam amanhã e domingo.
Milhares de pessoas deverão participar nas cerimónias que decorrerão em Lisboa e Almada e contam com uma procissão, uma missa no Terreiro do Paço, uma vigília e uma cerimónia no Cristo- -Rei, onde estará um enviado do Papa. A presença da imagem de Nossa Senhora de Fátima, que só sai da Capelinha das Aparições em ocasiões especiais, será o grande atractivo e poderá trazer 200 ou 300 mil pessoas, estima a organização.
Subir ao Cristo-Rei custa hoje quatro euros a cada adulto, sendo que às crianças são cobrados dois euros e à terceira idade 2,5. As 120 mil visitas anuais apenas permitem pagar a manutenção do elevador, que ascende aos 30 mil euros, e a electricidade, que supera os 20 mil. Pouco sobra para ir fazendo face à dívida de um milhão, contraída nas obras de restauro de 2001.
"O Santuário não dá lucro, tudo o que se ganha, aplica-se aqui", explica o reitor Sezinando Alberto, revelando que a maioria das 400 mil pessoas que anualmente visita o Cristo-Rei não sobe à capela, estimando que 70 a 75% dos visitantes - uns em peregrinação, mas a maioria por atracção turística - sejam portugueses. A esmagadora maioria dos habitantes dos arredores de Almada nunca terá visitado o monumento. "O facto de estar aqui torna-o pouco apelativo para as pessoas."
Os restantes são originários de Espanha, França, Itália e Irlanda. O reitor lamenta que a memória de quem deu corpo ao projecto e os seus princípios espirituais tenham sido traídos, na medida em que, com o passar dos anos, o monumento foi sendo entendido "como uma memória histórica pertencente ao passado". Ainda assim, não faltam "milhares de exemplos" de quem procura o santuário como simples miradouro, mas não abandona o local sem deixar uma prece na caixa das intenções. "É um gesto simples, mas que demonstra bem que Cristo-Rei é lugar de devoção", revela.
Os tempos de crise e a "preocupante dívida" tornam o orçamento das celebrações rigoroso. "Podíamos ter chegado aos 350 mil euros, mas eu fui cortando até aos 200 mil. Era um escândalo fazer umas celebrações que chocassem o País", alerta, revelando que as verbas foram totalmente obtidas junto de patrocinadores do evento.

EMOÇÕES ENTRE OS QUE VIRAM A VIRGEM EM LISBOA
O lenço que tinha na mão era para acenar o adeus a Nossa Senhora de Fátima e não para limpar as lágrimas que lhe corriam no rosto. A emoção de Eduarda Caetano - "demasiado íntima para se conseguir explicar"- era, no entanto, partilhada por mais cem mil pessoas que, por uma tarde, transformaram a Praça do Comércio em Fátima. Mesmo assim, metade das 200 mil estimadas e muito menos que as 500 mil que estiveram na última vinda a Lisboa da imagem da Capelinha.
A missa à beira-rio assinalou o 50.º aniversário do Cristo-Rei, mas foi a imagem da Virgem que levou a maioria dos fiéis à procissão. Joaquina Fernandes, 68 anos, devia estar em casa "por causa da artrite", mas a fé fez com que saísse à tarde, com um saco de pétalas num braço e um banco no outro. "Lembro-me da inauguração do Cristo-Rei. Antes, lembro-me de contribuir nos peditórios que fizeram para a construção." Por isso, e sobretudo pela Virgem, não quis perder a festa.
Ana Valentim, de 84 anos, aguardava junto da vedação há duas horas para ver de perto a imagem de Nossa Senhora de Fátima, no seu regresso a Lisboa para as celebrações do Cinquentenário do Santuário do Cristo-Rei. Antiga professora de canto coral em Angola, garante que foi o divino que a salvou. "Foi graças a ter-me agarrado com toda a força a uma fotografia de Nossa Senhora e ter-me ajoelhado perante Deus que um terrorista não me matou em Malange, Angola, em 1975", contou, acrescentando que "Nossa Senhora cura as feridas da vida".
Na homília, o cardeal-patriarca fez questão de salientar que os lisboetas não devem reduzir o santuário a um miradouro. Até porque a sua presença, virado para a cidade, transforma Lisboa num templo.
Apesar de ter sido banhada pela multidão à tarde, Nossa Senhora foi recebida em Lisboa por poucas dezenas de pessoas, num ambiente intimista e recatado. Ainda não eram nove horas e à Igreja da Carreira, na Gomes Freire, chegavam fiéis que, pela vizinhança, souberam que aqui chegaria a Virgem. Uma paragem técnica para tirar a imagem do estojo, onde veio no carro e transferi-la, com "alguma dignidade", diz a organização, para o jipe.
"Será que lhe consigo tocar?", interrogava-se Cesaltina, enquanto vendia, com convicção, terços a todos os que se aproximavam, sem deixar escapar até os polícias. Ao som de cânticos e muitas lágrimas, a imagem foi exposta na capela por alguns minutos, emocionando todos os que, devotos da Virgem, só a conheciam de ver ao longe em Fátima. Foi a 13 de Maio que a filha nasceu, a 13 de Junho que casou e só se podia chamar Maria de Fátima. Ontem, logo de manhã, não quis deixar de vir partilhar esta emoção.
Outro momento informal mas comovente viveram pais, crianças e pessoal do Hospital D. Estefânia, local onde a vidente Jacinta morreu. "Se os meninos choram, Jesus pega- -lhes ao colo e Nossa Senhora também", lia- -se num cartaz pintado pelas crianças. Fernanda segurava com força a mão de Jessica, a filha de cinco anos, há três com uma doença cujo nome nem sabe pronunciar. "É maravilhoso estar assim perto e poder pedir a cura para a Jessica", desabafou.
Após outra paragem na igreja dos Anjos, a imagem foi em procissão até à igreja de São Nicolau, algo que não estava previsto mas foi impossível de conter quando milhares de pessoas se juntaram nas ruas. No altar desta igreja da Baixa, a Virgem foi visitada por outros milhares de fiéis. Mas quem integrou o cortejo até à concentração foram apenas as crianças e alguns padres.
Na Rua da Prata, com os altifalantes a encher o ar com sons da procissão, muito antes de se conseguir avistar o cortejo, só uma colcha branca nas janelas. "Fechámos a loja e ficámos cá para a profissão, eu e a minha colega. Tivemos sorte de ter aqui uma colcha que era para mandar limpar", conta Helena Martins, à janela da sapataria onde trabalha. Ao lado, fotografias da família e do patrão para "pedir por eles". Na rua, a procissão chamava a atenção a devotos e curiosos. A norte-americana Carol Amick tirava fotografias a "our lady of Fátima" e explicava que era tudo muito interessante para quem não está habituado, mesmo sendo anglicana.
Os passageiros dos dois aviões de carreira comercial que passaram sobre o Cristo Rei na altura da procissão do Adeus à Virgem, com muitos lenços brancos a agitarem-se, viram do céu uma bonita festa. Os 50 anos do Santuário do Cristo Rei, no alto de Almada, atraíram dezenas de milhar de peregrinos que ouviram o enviado do Papa, cardeal D. Saraiva Martins, exaltar o amor como sinal de Deus e ao mesmo tempo algo que requer uma resposta dos homens, no amor a Deus e no "amemos-nos uns aos outros como a nós próprios".
Na sua homilia, o cardeal Saraiva Martins exortou os peregrinos a serem "apóstolos da esperança" e foi ouvido. A uns 60 metros do altar, mais ou menos no mesmo local onde há 50 anos assistiu à inauguração do monumento do Cristo Rei, João Oliveira Primo, de 86 anos, reformado da Guarda Fiscal e há mais de seis décadas a residir em Almada, contou-nos como desde esse Domingo de Pentecostes até hoje sempre olhou o monumento como um abraço de esperança.
"Na inauguração vim com a minha mulher, Maria Augusta, mas actualmente ela não está em condições de sair de casa, mas eu venho cá muitas vezes porque aqui sinto--me feliz".
Em muitos olhos, a mesma felicidade brilhava com lágrimas de emoção e fé, sobretudo à passagem da imagem peregrina da Virgem de Fátima. O ambiente geral era de agradecimento e devoção. Havia quem destacasse o branco resplandecente da imagem num fundo de céu azul com algumas nuvens brancas, como as que ilustram as estampas dos santinhos. Tudo graça divina.
A imagem de Nossa Senhora de Fátima visitou a Comunidade de São Lourenço, no Monte de Caparica, onde se encontra a associação Vale Acór, organização cristã que visa a recuperação de toxicodependentes e alcoólicos. À espera da Virgem estava um tapete de pétalas de rosa. Iniciada a oração, antigos consumidores de drogas ajoelharam-se, sendo a despedida efectuada com lenços brancos e lágrimas.
De regresso à Igreja paroquial, Nossa Senhora conheceu então um banho de multidão que terminou no Santuário do Cristo Rei. A expressão popular de fé encheu as ruas com orações e cânticos, após uma noite de vigília na igreja, lotada, e após milhares de fiéis terem participado na Procissão das Velas.

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