A Madalena

A freguesia das mais antigas de Lisboa, Madalena foi fundada por D. Afonso Henriques poucos anos depois da tomada da cidade. A data exacta da criação é desconhecida, mas sabe-se que pelo menos em 1164 já existia.
A freguesia da Madalena insere-se numa zona da cidade a que já se chamou a “Lisboa genética”. É uma área que se desenvolve entre o Terreiro do Paço e o Castelo, agregando a Baixa, em conjunto com os seus espaços de encontro: a grande praça do Rossio e o Martim Moniz. Associa também os arredores imediatos: Mouraria e Santana. Nesta área se indicia e começa o crescimento da cidade desde o seu núcleo de nascença.
A proximidade do rio e as possibilidades de defesa oferecidas pelas colinas foram determinantes para o povoamento de Lisboa. Dos núcleos iniciais, situados entre os esteiros que chegavam à actual Praça da Figueira e a colina onde viria a ser erguido o castelo, a urbe irradiou, em primeiro lugar, para a beira-Tejo. Quando, em 1147, D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros, esta já não era uma povoação entre muralhas. Existiam dois arrabaldes fora da Cerca Moura, muito povoados. Um, a nascente, já então se chamava Alfama, o outro, que ocupava o vale compreendido entre o monte de S. Francisco, a ocidente, e o Castelo, a oriente, veio a ser a Baixa. Foi D. Dinis quem “criou” a Baixa, dando-lhe foros e mandando construir, junto ao rio, as Tercenas Reais e Estaleiros, um troço de muralha destinada a proteger a zona baixa da cidade de pirataria marítima, e a Rua Nova.
Em finais do século XIV, a área sul da baixa estava cercada por duas muralhas, a segunda das quais mandada construir por D. Fernando, corria, no seu troço frente ao mar, paralela ao muro de D. Dinis. Nesta altura, devido ao contínuo crescimento das relações económicas de Portugal com o Norte da Europa e o mundo mediterrânico, a zona ribeirinha da Baixa vai-se tornando, cada vez mais, no centro comercial da cidade, aí existindo alguns estabelecimentos públicos e municipais, mais directamente ligados ao movimento marítimo: a Alfândega, a Casa dos Contos, a Casa de Ver-o-Peso, a Portagem, o Paço dos Tabeliães, o Paço da Madeira e o Paço do Trigo. Quase todos estes estabelecimentos se encontravam então dentro dos limites da freguesia da Madalena. A sua área geográfica era nessa época muito maior que actualmente, assim se mantendo por vários séculos.
Em 1708, segundo José Maria Baptista, a freguesia compreendia as ruas seguintes: “da Corrieiria, da Mercearia, do Terreiro de Martines, das Pedras Negras, dos Almazães, do Arco do Caranguejo, do Pé da Costa, da Porta Nova do Ferro, dos Celeiros, Nova da Prata (em parte), da Confeitaria, do Ver do Peso, do Príncipe, rua e largo do Pelourinho Velho, da Portagem, da Fancaria de Baixo, das Carniçarias, de D. Julianes, de D. Mafalda, do Hospital dos Palmeiros, da Padaria, dos Arcos da Misericórdia e diversos becos”. A estas artérias acrescenta J. B. de Castro como existentes dentro da freguesia, antes do terramoto de 1755, as ruas “do Arco de D. Teresa, de D. Gil Eanes, das Louceiras, da Portagem Nova (da parte dos livreiros e dos mercadores), o Terreiro do Paço e o Cais da Pedra”.
Com o progresso das navegações e conquistas tornadas, a partir do reinado de D. João II, empresa do Estado, culminadas com a prosperidade por elas trazida, D. Manuel toma a decisão de construir, entre 1500 e 1504, um Paço Real na zona da Ribeira. As muralhas de D. Fernando foram vencidas pelas construções urbanas, e o Paço, desenvolvendo-se em casas e anexos, ia transfigurando o sítio. Com o estabelecimento de D. Manuel no Paço da Ribeira, a vida política, comercial e cultural da cidade passa a desenvolver-se, quase integralmente, entre o Rossio e o Terreiro do Paço.
O Terreiro do Paço tornou-se no novo centro político e administrativo da capital e, nas suas imediações, foram mandados erguer, por D. Manuel, os edifícios onde funcionavam os serviços necessários à coordenação de todo o empreendimento expansionista. Entre esses vários edifícios foram erguidos, a oriente, a Alfândega Nova e o Terreiro do Trigo (Celeiro Público) que garantiam o controlo da entrada e saída do abastecimento e armazenagem dos mais variados produtos importados e exportados. Entre as duas praças surgia um emaranhado de ruas estreitas e tortuosas, distinguindo-se, pela sua extensão e largura, a Rua Nova que, atravessando a Baixa paralelamente ao Tejo, tinha ao longo do seu percurso duas designações: Rua Nova dos Ferros (1.º troço) e Rua Nova dos Mercadores (troço terminal). Segundo alguns escritos quinhentistas, esta zona da Baixa era então algo de magnificente. Foi, infelizmente, esta área da cidade, onde a Madalena se integrava, a mais atingida pelo terramoto de 1755 e pelo incêndio que se lhe seguiu, onde tudo desapareceu e se consumiu. Na Igreja da Madalena apenas a sacristia se salvou. Na Igreja da Misericórdia, que viria a dar lugar à da Conceição Velha, só a porta travessa e a capela do Santíssimo, aproveitada para a construção do novo templo, resistiram ao cataclismo. Os edifícios civis, esses, quase todos ruíram ou sofreram avultados danos. Quase de imediato começa o refazer de Lisboa segundo as teses iluministas da “cidade ideal”. É executado o plano de conjunto da Baixa Pombalina e parcialmente ordenadas as zonas do Príncipe Real, Rato, S. Bento e Lapa. Assiste-se, então, a uma espantosa capacidade de ressuscitar e renascer das cinzas, com outra, inesperada, geometria e ordem: a Lisboa de Pombal. Do Terreiro do Paço parte para Este a Rua da Alfândega, onde se encontra o notável portal manuelino da Igreja da Conceição Velha, aproveitado, como já se referiu, da antiga igreja da Misericórdia, destruída pelo terramoto. No lugar da dita Igreja foi construída a Igreja da Conceição Velha. Também a Igreja da Madalena é uma reedificação integral do período imediato ao terramoto e situa-se no largo do mesmo nome.
Por trás da Igreja da Madalena, pouco mais ou menos no sítio onde a Rua de S. Julião vai entroncar na Rua da Padaria, existiu um famoso “Hospital dos Palmeiros”, que deu o nome a uma rua que findava na Rua do Arco de Nossa Senhora da Consolação. Esse hospital, bem curioso, oferecia a pobres peregrinos, que iam ou voltavam da Terra Santa, “cama, água e candeia, só por três dias”. Por que no regresso traziam consigo uma palma, chamavam “palmeiros” a esses peregrinos. O hospital foi fundado em 1292 por romeiros ingleses e era administrado por “vinte cidadãos principais da cidade”. Ardeu totalmente com o terramoto. Ligando a Rua da Madalena ao Largo de Santo António da Sé, rasga-se a Rua das Pedras Negras. A designação é antiquíssima pois já aparece em 1299. Esta actual Rua das Pedras Negras não corresponde à anterior ao terramoto. Nessa época começava num ângulo, exactamente no vértice das Travessas do Almada e das Pedras Negras, descrevendo uma larga e pronunciada curva. Os arquitectos de Pombal, arrasando e terraplenando, tornaram-na rectilínea, enquadrando-a no xadrez regular que aqui desenharam. Da Rua de S. Mamede parte, atravessando a das Pedras Negras, a Travessa do Almada, onde se encontram, embebidas a pouca altura da fachada do edifício que esquina para o Largo e Rua da Madalena, várias lápides romanas, a mais importante das quais é a que documenta a dedicação de uma memória feita pela cidade de “Felicitas Júlia, Olisipo” a Lúcio Cecílio, questor da Bética, tribuno da plebe e pretor.
A Madalena tem como orago Santa Maria Madalena, embora festeje os santos populares. Do seu património destacam-se as Igrejas da Madalena e da Conceição Velha, edifícios pombalinos e casa brasonada na Rua das Pedras Negras, o Café Martinho da Arcada e Calçada das Pedras Negras e a Casa de Lafões. Tem também feiras de numismática, filatelia, postais e outros colecionáveis (todos os domingos).

Comentários

Tó Zé disse…
Quase por acaso acedi a este artigo,no seu blogue, que achei muito interesante, pela informação, pela sua escrita , e também pelas fotos e a sua apresentação geral. Aproveitei para fazer uma rápida visita ao seu blogue que também me agradou bastante. Parabéns.

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