O Martinho d'arcada

Com projecto de autor desconhecido, o Café-Restaurante Martinho da Arcada, outrora também conhecido como Café da Neve, existe desde 1778. De planta rectangular, mostra 4 portas, enquadradas por 4 pilastras duplas, emolduradas em cantaria e encimadas por entablamento. A zona do café é revestida a azulejos brancos, podendo ainda observar-se em azulejos, junto à entrada do lado esquerdo, a figura de Fernando Pessoa de autoria do pintor Angelo de Sousa. Foi neste estabelecimento que Pessoa escreveu parte dos seus poemas e, entre eles, os que fazem parte do único livro publicado em vida - Mensagem.
Abriu as suas portas à luz dos candeeiros a óleo, depois conheceu os a gás e brilhou de outra maneira quando a electricidade chegou, no coração de Lisboa, assistiu às grandes revoluções dos últimos dois séculos. 218 anos passaram desde a sua abertura, a 7 de Janeiro de 1782, chamado então “ Casa das Neves “, hoje é o café mais antigo de Lisboa e conquistou o seu actual nome em 1845. Entre o inúmero número de pessoas anónimas que estiveram presentes ao longo do anos, algumas das nossas figuras nacionais passaram pelas suas cadeiras, Bocage, Eça de Queirós, Cesário Verde, Columbano, Gago Coutinho, Duarte Pacheco,… contudo o café ficou sempre fortemente ligado a um dos escritores mais famosos, Fernando Pessoa, ele fez dele o seu escritório, dizem que terá pago muitos jantares com poemas, como o que escreveu num menu e que está pendurado na parede até hoje. Ainda se pode ver a sua mesa habitual, com a chávena de café, e o copo de aguardente, assim como alguns dos seus livros. Hoje pode saborear um almoço ligeiro sentado na sua esplanada e com vista para o Terreiro de Paço.
Se as mesas do Martinho da Arcada falassem, diriam apenas novidades deste século, coisa pouca para um café-restaurante duas vezes centenário. Fernando Pessoa frequentou-o regularmente depois de largar ferro da Brasileira do Chiado, e lá esteve três dias antes de morrer, bebendo um último café com José de Almada Negreiros.
Se estas mesas falassem... As mesas do século XX. Diriam que Fernando Pessoa foi um seu «habitué», como deixou registado no poema Sá Carneiro:

É como se esperasse eternamente
A tua vinda certa e combinada
Aí embaixo, no Café Arcada,
Quase no extremo deste continente.

Mas diriam outros sim que Mário Sá-Carneiro, destoando do amigo, não ia muito à bola com o Martinho. Lembre-se a carta que datou de Paris (7.8.1915):
«Espero uma resposta telegráfica do meu Pai a uma carta que lhe escrevi daqui no dia da minha chegada (...). Eu pedia-lhe nessa carta que me deixasse, por tudo, ficar aqui - pelo menos até me mandar ir para a África. Em suma, bem frisado: tudo menos Lisboa. (...) Acima de tudo me arrepia a ideia sem espelhos de, sem remédio, novamente fundear no Martinho... Não sei porquê esse café - não os outros cafés de Lisboa, esse só - deu-me sempre ideia dum local onde se vem findar uma vida: estranho refúgio, talvez, dos que perderam todas as ilusões, ficando-lhes só, como magro resto, o tostão para o café quotidiano - e ainda assim, vamos lá, com dificuldade. Tanto lepidopterismo!»
Em 1935 o «estranho refúgio» ainda atraía Pessoa. O café, esse, custava cinco tostões.

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