Igreja da Madre de Deus

Em Fevereiro de 1509 D. Leonor compra umas casas a D. Inês, viúva de Álvaro da Cunha e a 23 Junho, segundo Fr. Rodrigo de S. Tiago, a igreja começou a ser construída, desconhecendo-se como seria o convento inicial. Em 1517 chegaram as relíquias de Stª Auta ao convento.
No séc. 16 D. João III manda fazer obras no convento; a historiografia generalizou a ideia da actual igreja e claustro ser de sua autoria e só em 1616 surge a primeira descrição conhecida da igreja diz ter no cruzeiro 4 capelas: Madre de Deus, dos Reis, Santa Auta e Nª Sª Assunção.
Em 1662 realizou-se a venda da capela de Stª Auta com o seu retábulo e carneiro a Gaspar de Faria Severim, por 300 mil reis.
Entre 1694 e 1696, foram várias as dádivas da família real para a sobras do mosteiro.
Em 1746 iniciam-se obras de redecoração do convento impulsionadas pelo Pe. José Pacheco, sacristão-mor, prolongando-se estas para além da sua morte. No séc. 18, década de 50 foi executado o presépio, atribuído a António Ferreira, cocebido para uma capela própria junto ao coro-alto, actualmente designada como Capela de Santo António.
Em 1872 fizeram-se obras de transformação do antigo convento a asilo D. Maria Pia, dirigidas pelo Arqº José Maria Nepomuceno: substitui pórtico setecentista por uma réplica do representado no retábulo de Santa Auta, alteou parte da fachada, abrindo-lhe várias janelas, retirou altar do lado do Evangelho, criou novos painéis de azulejos, abriu vão para o sub-coro e para a casa do capítulo, revestiu o claustrim com azulejos do Convento de Santa Ana, levantou parte do claustro. Em 1882, o conjunto estaria desmontado, estando algumas figuras presentes na Exposição de Arte Ornamental, referidas no catálogo como sendo de Machado de Castro.
Em 1893 o prior Gomes de Brito descreve a sacristia como estando atulhada de imaginária, entre a qual se acham algumas peças do primitivo presépio.
Trata-se de uma igreja conventual barroca, de planta rectangular, com algumas remodelações revivalistas, como são o pórtico, janelas e platibanda do frontespício, caixotões da antiga sala do capítulo, claustrim, etc. Talha barroca, alguma, como o púlpito, de estilo joanino, de transição para o rococó; a capela-mor é já plenamente rococó da capital. Azulejos barrocos do ciclo dos Mestres; os da sacristia são rococós, da 1ª fase, e têm grande explosão cromática.
Distingue-se pelo notável e harmonioso diálogo entre a talha e a pintura. A reaplicação de azulejos vindos de outros conventos ou o seccionamento de outros na Igreja, alterou profundamente o íntimo diálogo entre a arquitectura e aquele revestimento. Os colocados no claustrim são talvez a criação mais tardia de Manuel dos Santos e revelam uma notável expressão teatral. Os retábulos joaninos e o relicário do coro-alto revelam, como característica especial do artista, a capacidade de dar à madeira o aspecto de bronze dourado, o que é novidade para a época nos relevos decorativos. O presépio evidencia o trabalho de vários artistas, apresentando uma qualidade de tratamento algo desigual, algumas delas com afinidades com peças de terracota de uma Via Sacra, actualmente numa capela do Mosteiro de Santos-o-Novo. As cenas bíblicas são em maior número que o comum, surgindo um ciclo completo da vida de Cristo desde o Nascimento até ao Baptismo. As imagens dos cortejos, mais exóticas, possuem traje próximo da cultura índia brasileira. O modelo de algumas figuras repete-se em vários grupos que se integram no torrão. Facto interessante e curioso é a importação de alguns modelos, como o traje de alguns camponeses, com camisas tipicamente italianas e a presença de uma galinha paduana, que pertence a uma espécie criada para fins meramente decorativos, num esquema semelhante ao do presépio da Capela de Nossa Senhora do Monte.

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