Borboletas ibéricas em Lisboa
Um pequeno grupo de especialistas e amantes das borboletas está a ultimar os preparativos para a abertura de uma estrutura inédita na Europa. O Lagartagis vai ocupar um recanto do Jardim Botânico de Lisboa e tem inauguração marcada para 11 de Setembro. Num recanto do Jardim Botânico de Lisboa está a ser criada a primeira Estufa de Borboletas Ibéricas da Europa, a inaugurar em Setembro, graças à “carolice” e ao espírito de missão de um pequeno grupo. As pedras do lago central da estufa foram oferecidas pelos pais de uma bióloga envolvida no projecto. O material foi transportado na carrinha de um amigo e o pequeno tanque artificial construído nas horas livres do jardineiro “que meteu férias do outro emprego”. Assim começa a história da Lagartagis, uma estufa de 220 metros quadrados onde muitas das espécies estão a ser recolhidas por amadores apaixonados pela Natureza em saídas de campo programadas pelo Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal.A ideia, inédita na Europa, partiu de Patrícia Garcia-Pereira, presidente do Tagis, quando em 2005 apresentou o projecto de uma exposição intitulada «Borboletas através do tempo» e percebeu que queria ter uma sala com espécies vivas para mostrar aos visitantes. A bióloga propôs então ao Jardim Botânico um plano mais ambicioso, que passava pela construção de um jardim mediterrânico com borboletas da Península Ibérica. Hoje, já voam no Lagartagis 100 borboletas de oito espécies. “O objectivo é ter 15 espécies com populações estáveis”, afirmou Patrícia Garcia-Pereira, explicando que essa tarefa obriga a um intenso trabalho diário, uma vez que está em causa a sobrevivência de frágeis animais, apesar de alguns serem do tempo dos dinossauros.Para a gestão das populações, jardineiros e biólogos trabalham diariamente, a fim de garantir que “as espécies não podem acasalar e pôr ovos indefinidamente” e de assegurar que “na estufa, praga não entra”. O olhar de Patrícia está treinado para detectar automaticamente a presença de qualquer “intruso”: pássaros, aranhas, formigas ou abelhas são animais indesejados no reino das borboletas construído pelo homem. Apesar de todos os cuidados, a presidente do centro de investigação não se cansa de repetir: “Temos de nos habituar e saber que elas morrem muito”. Por isso, o Tagis programou para este mês uma série de saídas de campo por todo o país, para que amadores possam participar no projecto, recolhendo espécies para a estufa.Antes das expedições, aprendem a identificar as espécies, a manusear as redes e a técnica de pegar nas borboletas. Entre as 10 e as 11 horas, momento em que o voo atinge o auge, entram em acção. A população de “borboletas monarcas” que actualmente vive no Lagartagis veio do Algarve, quando eram “lagartinhas”, recordou a responsável. As oito espécies que habitam a estufa já motivaram uma “guerra” entre botânicos e “borboleteiros”, como Patrícia Garcia-Pereira gosta de apelidar os lepidopterólogos (especialistas em borboletas). É que espécies como a “comilona” borboleta monarca são uma dor de cabeça para os botânicos, que vêm desaparecer as plantas do jardim, mas uma alegria para os “borboleteiros” que encaram o seu apetite como sinal de adaptação ao habitat. Mas nem todas ali vivem às custas do trabalho dos botânicos. Muitas lagartas “são alimentadas com tenrinhas alfaces e couves de Bruxelas compradas na mercearia”.Com um refrescante lago no centro, o Lagartagis assemelha-se a uma cidade de “pequenos bairros”, graças à construção de canteiros destinados às diferentes espécies e separados por corredores de gravilha, para que os visitantes possam passear pelo jardim. No dia 11 de Setembro, quando abrir ao público, terá uma outra surpresa: os “cantinhos literários”, espaços dedicados a escritores amantes das borboletas, com cadeiras super-confortáveis à disposição dos visitantes, para contemplarem as espécies, tirarem fotografias ou simplesmente lerem um livro. Com este projecto, os responsáveis têm esperança de contribuir para a conservação da diversidade da fauna de Portugal e, quem sabe, até de salvar a “maculinea alcon” e a “melitaea aetherie”, as duas espécies de borboletas portuguesas que se encontram ameaçadas de extinção.
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