Edifício na Rua Saraiva de Carvalho, nº 66 - 68 / Casa onde faleceu Almeida Garrett

O imóvel foi construído em 1853, sendo alugado ao Visconde de Almeida Garrett (1799 - 1854). Em 1854, a 9 de Dezembro, falece no primeiro andar o Visconde de Almeida Garrett; após a sua morte, o interior foi despojado do seu recheio pelos familiares e em 1881 o imóvel é proposto, pela Real Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses, como Monumento Nacional.
Em 1961 a empresa "Penteadora" adquire o imóvel a Teodoro dos Santos passando a casa e o quintal a fábrica de confecções e em 1971 quando a unidade de produção é transferida para a Moita a casa passa a ser ultilizada como armazém.
"Trata-se de uma residência bastante modesta, sem aparato de entrada nem de circulação, moradia burguesa por exelência que hoje ostenta, como única particularidade (...) a placa, sobre a entrada principal, evocadora do seu ilustre primeiro residente. A cobertura azulejar, em losanjos azul e branco, é certamente posterior à primeira ocupação, mas, no resto, a fachada permanece quase intacta, à excepção dos últimos vãos do rés-do-chão que eram, inicialmente, portas de serviço. A matriz compositiva é inteiramente pombalina, exemplificando bem a permanência do modelo que (...) continuou a ser a solução mais económica e mais divulgada da edificação lisboeta" (SILVA, 1997); "Ao centro da fachada, a porta principal diz para um pequeno vestíbulo, tendo a escada em frente, e duas portas laterais. De cada lado da porta principal sua janela de grades, e adiante delas largos portões: o da direita, quando se olha para o prédio, dava entrada para a rampa que conduzia aos pátios, jardim e quintal; o da esquerda, para a cocheira, cavalariça e palheiro. A estes cinco vãos do rés-do-chão correspondem cinco janelas no andar nobre: as águas furtadas não tinham senão uma janela para o lado da rua.(...) A escada fechava em baixo por duas meias portas, polidas, com óculos de vidro ao centro, encimadas pelas iniciais AG em metal dourado, e sobre estas o timbre das armas e a divisa "semper fixa". (...) O chão, entre a porta e a escada, de pedra; os alisares, brancos; as paredes, estucadas; madeiras de corrimão e portas, fingindo mogno; os degraus, pintados e envernizados, imitavam oleado; ao centro deles corria o tapete, apertado com braçadeiras de metal doirado. No cimo da escada, no primeiro andar, porta em frente, e duas laterais. Aquela dizia para a sala de espera; estas para dois corredores. Na saleta, pequena e quadrilonga, janela ao fundo sobre a rua; cortinas de cassas bordada, e transparente pintado. Tapete inteiriço, pegando com o da sala e da livraria, de cores carmesim, verde e preta; passadeiras de holanda crua, em cruz; duas banquinhas de jogo e quatro cadeiras com assentos de marroquim vermelho, compunham a mobília. Paredes e tecto de estuque branco (...). Entre as portas do corredor e do quarto de cama, a banca de escrever, bufete magnífico, de pau santo, com quatro pés torneados em espiral, e travessas em cruz. À esquerda, a majestosa cadeira abacial que pertencera ao último abade de São Bento e ao bispo D. Frei Alexandre da Sagrada Família, tio de Garrett. Entre a banca e a parede, tamborete coberto de couro lavrado em gomos, cada um de sua cor. Ao alcance das mãos, cordões de campainha à direita e à esquerda da mesa. Entre as duas janelas, fogão de ferro, e por cima dele grande relógio pendurado. Ao fundo, entrando da saleta, duas belas estantes de pau santo, presente do falecido duque de Palmela, D. Pedro. Eram móveis de estilo severo, que aliavam a elegância à comodidade (...). Defrontavam com elas outras duas, aos lados da porta de entrada, feitas em casa, de colunas torcidas em espiral, e gavetas-cartões. A parte anterior destas não era pau santo (...). A alcova, imediata à livraria, quase quadrada, e com o tecto estucado de branco, recebe luz do escritório e da pequena fresta para o terreno da condessa das Antas (...). Na parede do fundo, à esquerda, entrando, por ser o recanto mais escuro, praticara-se, disfarçada no papel, a portinha da retrete e corredor particular (...). O chão atapetado, a cama de pau santo, estilo "sebastianista" encostava a cabeceira à parede da fresta (...). Fez-se a armação de cassa branca, e também a colcha. De cada lado do leito, a competente banquinha de pau santo, descendo sobre elas os cordões de seda das campainhas. Ao lado esquerdo da porta, entrando, belo contador, pouco mais alto que as cómodas ordinárias, com gavetas grandes, própris para roupa, e sobre ele o estojo de barba inglês. Na parede fronteira à da fresta, outro contador, também de ricos lavores. Por cima dele, um crucifixo pequeno, de bela escultura, que pertencera à mãe do poeta (...). Sobre o contador, jarro, palmatória, estante de missal, escrevaninha com ambula para santos óleos, e dois vasos pequenos, tudo de prata dourada (...). Entremos na sala (...). O papel das paredes tinha ramos de ouro em relevo sobre fundo branco. Cortinas de cassa branca bordada, e manteaux de damasco encarnado, descendo até à altura dos parapeitos das janelas. Transparentes brancos. Em frente da porta de entrada, fogão inglês, bronzeado por dentro, guarnecido de mármore branco. O espelho de Veneza que lhe era destinado não chegou a pendurar-se. (...) Entre o fogão e a janela, sofá de estilo "renaissance" forrado de damasco carmesim. Diante do sofá, mesa de embutidos, no mesmo estilo. Entre o fogão e a porta da alcova, três cadeiras irmãs do sofá, e outra mesa de uma só tábua, oblonga, com muitos arabescos e embutidos, servindo-lhe de pé grossa coluna torneada em espiral. No vão das duas portas, banquinha de fantasia, elegantíssima, de dois pés, compostos cada um por duas colunas em espiral. Por cima da banca, pequena "étagère" presa à parede. No vão das janelas, outra mesa, de feitio quase idêntico à que lhe ficava defronte; "étagère" por cima. Ambas tinham embutidos de madrepérola, sendo, como todos os outros móveis, em pau santo. Aos lados da porta de entrada, cadeiras de espaldar forradas de damasco carmesim com franjas de seda. Entre essa porta e o corredor, pequeno bufete, muito formoso, e sobre ele uma caixa quadrilonga guarnecida de espelhos, tendo as armas e a divisa de Garrett pintadas no tampo com as cores que lhe competiam (...). Nos cantos, ao fundo, duas colunas em espiral, encimadas por jarras de Sévres, contendo magníficos ramos de penas feitos no Pará. (...) Sobre o fogão, duas belas serpentinas de ágata ou mármore de Florença e metal prateado. Elegantes placas japonesas, para dois e três lumes, ornavam as paredes. Tinha o poeta pucos quadros, e nenhum fora ainda colocado. Ao meio da sala, poltrona estofada em seda de ramagens. (...) Cozinha: espaçosa, clara e arejada, com duas janelas sobre o pátio da passagem para o jardim; além da porta da copa, outra para o corredor do quarto de cama. Ao centro, alçapão, comunicando com os quartos de baixo. Na chaminé, fogão de mediana grandeza e do melhor sistema então usado. Uma bomba fornecia água da cisterna ou poço, que há no pátio em baixo. Nos vãos de entre as janelas, guarda-loiças volantes (...)" (AMORIM, 1881)

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