Em 1782 vendia-se neve em Lisboa...

Hoje, em vez da salgadeira, há o congelador... E as bilhas de barro ou são simples elemento decorativo do artesanato tradicional ou cederam o seu papel de outrora aos prestimosos e já indispensáveis frigoríficos de agora. Mas a verdade é que, na História dos inventos, o frigorífico só apareceu em 1905 e este ainda levou algumas décadas para se afirmar na sua produção em termos industriais. É, pois, uma aquisição relativamente recente do nosso conforto quotidiano.
Hoje, retiramos rotineiramente do frigorífico as pedras de gelo que quisermos... E se nos apetecer um sorvete ou um doce gelado, nós não teremos, de igual modo, quaisquer problemas. Na verdade, também se tornou lugar-comum o consumo de bebidas frescas e o dos doces gelados. E, como é bem sabido, o gelo tem ainda aplicações, em tratamentos de Medicina Curativa.
Mas muito antes da invenção do frigorífico, já se consumiam, em Portugal, as bebidas e os doces gelados e que, do mesmo modo, já eram tratados os doentes com aplicações de gelo. E como? Através da utilização de neve que vinha das serras. Aliás, parece ser muito antiga a prática da utilização da neve e do gelo para refrescar bebidas e fabricar doces gelados. E autores há que defendem ser devida aos Árabes a iniciativa deste aproveitamento.
Não foi só a Serra da Estreia que forneceu a neve, que, pelo menos, desde o século XVII, chegava a Lisboa, também a Serra de Montejunto e a Serra da Lousã, mais propriamente de um dos seus mais elevados cabeços, o Coentral.
Com o aproveitamento da neve surgiu o ofício dos Neveiros.
Na Serra de Montejunto, os monges dominicanos haviam construído no seu convento, cujas origens remontam ao século XII, os tanques, mais ou menos profundos e interligados por estreitas passagens, onde recolhiam o gelo que enviavam para Lisboa. Era — digamos — um sistema de vasos comunicantes...
Na Serra da Estrela, a neve conservava-se nos covões, isto é, nos pequenos vales naturais e nas neveiras. Acondicionava-se o gelo, cobrindo-o de palha e era transportado para Lisboa em bestas, carros e barcos, de modo que no seu preço, bastante elevado, se reflectiam as grandes despesas que se faziam na condução.
Na Lousã – Coentral existiam poços para guardar a neve. Cada poço tinha uma só porta, estreita, virada para Nascente, como que para evitar que, quando o sol é mais forte, pudesse entrar pela estreita porta e derreter a neve ali guardada. Utilizando escadas de mão, feitas em tosca madeira, os homens desciam ao fundo destes poços — que então tinham uma profundidade superior a uma dezena de metros — e, à medida que neles iam sendo despejadas as cestas com neve, iam calcando esta com pesados maços de madeira que empunhavam vigorosamente, à maneira dos calceteiros de hoje. Empedernida, isolada entre os paredões alisados pelo estuque, coberta depois com palha e fetos, a neve conservava-se, nesses amplos reservatórios, até ao Verão — sem que uma réstia de sol lhe pudesse chegar. Quando chegava o tempo quente, a neve era cortada e seguia em grandes blocos, para Lisboa.
O transporte era feito, numa primeira etapa, em ronceiros carros de bois. Apenas três ou quatro desses grandes blocos podiam ser carregados nessas robustas carroças e eram cuidadosamente envolvidos em palha, em fetos, mesmo em serapilheiras ou, ainda, metidos em caixotes. Este transporte da neve era assistido por protecções legais, como as que obrigavam os povos dos múltiplos lugarejos encontrados pelo caminho a repararem ou substituírem, com rapidez, as carroças danificados. E, do mesmo modo, eram facilitadas as passagens da neve pelas portagens ao tempo existentes.
Evocada na nossa época, a História dos Neveiros passou ao Folclore nas quadras populares:
"Do Inverno ao tempo quente
Pouco havia de interim
E servida a Régia Gente
Ia neve ao Botequim

Era no Terreiro do Paço
Que o Povo de Lisboa
Comprava sem embaraço
Do Coentral neve boa!"
De facto, à volta de 1782, a neve era vendida, em Lisboa, no botequim onde hoje se situa o café "Martinho da Arcada". Este foi sucessivamente conhecido por Casa da Neve, Casa do Café Italiana, Café do Comércio e Café Martinho, sendo esta última designação proveniente do facto de ter sido seu proprietário um tal Martinho Rodrigues, que, em 1810, foi contratador da Neve do Coentral. Esta casa tinha então um depósito de neve na Travessa da Parreirinha (próximo do Teatro de S. Carlos).
Aliás, há notícia da existência em Lisboa, de outros poços destinados a armazenar a neve. Houve poços no bairro da Graça e até a torre Norte do Castelo de S. Jorge, do lado da Calçada de Santo André, sofreu obras para ser transformada em depósito de neve.
Entretanto, segundo o jornal "A Gazeta de Lisboa" que se publicava no século XVIII, também se vendia neve, em 1792, no botequim da Casa da Ópera da Rua dos Condes e, em 1793, na Loja de José Rodrigues Ferreira, no Largo do Rato.
Já no século XIX, há várias alusões às lojas que vendiam neve, sorvetes e demais doces gelados... Em S. Roque, vendeu neve o Botequim do Távares... No Rossio, eram servidos gelados na loja de bebidas do Madre de Deus... E outros cafés e botequins, como o Marrara, o Minerva das Sete Portas, o Toscano, o Nicola e o Grego venderam neve — uns desde o 1.º de Maio, outros desde o dia do Corpo de Deus, como se pode ver pelos anúncios que já publicavam na Imprensa.

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