O velho do Restelo

Vasco da Gama partiu do Restelo a 8 de Julho de 1447 e essa viagem representou a esperança num projecto que não era acompanhado por toda a nobreza portuguesa, havendo muita gente que o considerava desnecessário, fora das possibilidades do reino, demasiado ambicioso e tocando as raias da loucura. Camões fala-nos de "um velho de aspeito venerando" que, na praia do Restelo, vocifera com "voz pesada": "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça!". Interpretando a ideia de ambição desmedida que justificava uma aventura tamanha, o "Velho do Restelo" diz mais adiante: "Não tens junto contigo o Ismaelita,/ Com quem sempre terás guerras sobejas" - quer ele dizer: não tens aqui mesmo, no Norte de África, um inimigo a combater, "Se queres por vitórias ser louvado". E diz mais: "Buscas o incerto e incógnito perigo" – sugerindo directamente que o rei de Portugal apenas vive a ambição de ser chamado de senhor "Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia", sacrificando meios desmedidos a esta glória "efémera".
Este Velho do Restelo – como ficou chamado para a História e como ainda hoje representa o espírito retrógrado e pouco empreendedor – descrê dos resultados daquela expedição e fala em nome de toda a gente que a ela se opôs e que desaconselhou D. Manuel a que a fizesse.
Todavia a esquadra preparou-se para a partida. Com os navios fundeados em Belém, abastecidos de tudo o que se julgava necessário, bastava-lhe um pouco de vento norte, o que é vulgar nestes meses de verão (como nos diz João de Barros). Foi feita uma vigília de todos os capitães, na ermida de Nossa Senhora de Belém, e no sábado, dia oito todos foram em procissão até à praia. Juntou-se muita gente e é fácil imaginar como se misturaram os curiosos, alegres e bem dispostos, com os vendedores e com o choro dos familiares desgostosos com aquela partida. Se encontrávamos pais e mães tristes e contidos, certamente, que havia esposas e noivas desesperadas em choro convulsivo, que olhavam o afastamento dos escaleres como quem vê esfumar-se a sua própria vida. Imagino os marinheiros em faina, dependurados nas vergas, caçando cabos, agarrados ao guincho para levantar ferro, e procurando distrair a sua própria dor, evitando olhar a multidão da praia, as colinas de Lisboa, o casario e tudo o que lhe trazia à memória os últimos momentos passados em terra, com a sua gente. São assim todas as partidas – também as temos hoje —, mas aquela deve ter sido mais dolorosa que qualquer outra porque se tratava de uma viagem para um desconhecido de onde, pela certa, muitos não voltariam.
Com a maré na vazante, os ferros foram recolhidos e peados deixando que os navios, lentamente deslizassem Tejo abaixo em direcção à barra. Vergas braceadas, as escotas devem ter sido caçadas e o som dos panos a grivar é substituído pelo assobio do vento nas velas e pelo borbulhar das águas sulcadas mansamente pelas quilhas. Já não era a primeira aventura marítima dos portugueses e aquela barra tinha visto muitas partidas tão incertas como aquela, mas era a "grande partida".

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Red Bull Air Race vai realizar prova em Lisboa

Carlos do Carmo canta Ary dos Santos

Lisboa terá Plano Ambiental até final do ano