S. Miguel

Freguesia de tradições e vivências únicas, criada em 1180, S. Miguel situa-se na chamada “Lisboa muçulmana e popular”. É uma zona localizada à ilharga do centro gerador (vale da Baixa e colina do Castelo), na qual surgiu esta primeira “Lisboa Oriental”.
Falar de S. Miguel é falar de Alfama. Falar de Alfama é evocar a Lisboa primitiva, é recordar o seu passado, é rememorar a grandeza de um povo descobridor de povos, a nossa vocação marinheira. É falar de Lisboa e o seu rio.
Várias entradas são possíveis para um percurso pelo bairro de Alfama. No alto, junto a Santa Luzia, há mesmo um esquema exposto numa parede com indicação e sugestão de visita. Lá em cima, no Largo de Santa Luzia há um miradouro com jardim central e balcões sobre Alfama. Dali avista-se todo o estuário do Tejo até à margem sul e vislumbra-se a cidade de Lisboa até Santa Engrácia. No mesmo largo levanta-se a Igreja de Santa Luzia, cuja construção foi iniciada no século XII, a expensas da Ordem de Malta, que a fizeram erguer sobre a cerca moura. No interior, de uma só nave, conservam-se sepulturas de membros daquela Ordem, das quais merece referência a de Frei Lourenço Gil, neto de D. Afonso III. O templo apresenta uma fachada simples, de tipo clássico, e serviu inicialmente de fortaleza avançada sobre os arrabaldes orientais. Restaurado após o terramoto, ostenta na ilharga um painel de azulejos de António Quaresma.
Pela Rua Guilherme Braga, chega-se ao Largo do Salvador, onde se ergue o grande e singelo Palácio dos Condes dos Arcos. Fundado por D. João Esteves de Azambuja, bispo do Porto, a sua história encontra-se ligada à do vizinho Convento do Salvador. O palácio foi ampliado no século XVII, passando para a posse dos condes dos Arcos. Ostentando fachada austera, apresenta no portal as armas dos seus segundos proprietários, abrindo-se depois num pátio com arcadas. Destaquem-se ainda os azulejos setecentistas e a pequena capela.
O Convento do Salvador foi começado a construir em 1319 e terminado no século seguinte por intervenção da Rainha D. Leonor. Doado às freiras dominicanas, foi sede paroquial, recebendo obras de beneficiação nos séculos XVI e XVII. Acolhendo essencialmente damas da nobreza, tornou-se, pelos donativos régios e rendas próprias, um dos mais ricos da cidade. A sua procura era tal que, em 1686, foi necessário colocar uma placa de trânsito, na rua que lhe dava acesso, para regulamentar o inusitado tráfego de coches, seges e liteiras que o demandavam. Reconstruído após o terramoto, que o reduziu a um manto de escombros, nunca mais retomou o anterior prestígio. Expropriado em 1834, é hoje sede do Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, mantendo ainda vestígios dos tempos conventuais.
Do Largo do Salvador desce-se para o centro de S. Miguel. A descida significa entrar no Beco das Cruzes, espreitar ao Beco do Carneiro, descer ao Beco da Cardosa, parar no Pátio do Almotacé. Esta deliciosa toponímia faz, de imediato, pensar no grande Afonso Lopes Vieira, um verdadeiro apaixonado de Alfama. Recordêmo-lo: “Para nos encantarmos com a Lisboa velha, procuraremos a Lisboa dos artistas, dos arqueólogos ou dos passeantes possuidores de gosto e de cultura. Então iremos invocando a Lisboa da Alfama, de saborosos nomes de ruas, poupados por milagre pelas nomenclaturas municipais, congostas, escadas, fachadas, arcos e caprichos tão evocadores, que nos é fácil, em própria luz e hora, visionar a festa de S. Frei Pero Gonçalves, cuja imagem de padroeiro os marítimos do bairro levavam em procissão, entre bailes e folias”. Hoje, S. Miguel é o coração das festas a Santo António.
Do património de S. Miguel fazem parte as Igrejas de S. Miguel e de Santa Luzia, Convento do Salvador, Palácio dos Condes dos Arcos, edifício da antiga Cadeia do Limoeiro, vestígios das muralhas medievais e Chafariz de Dentro. Das suas colectividades destacam-se o Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, Clube Sportivo Adicense, Clube Recreativo 21 de Março, Sociedade Boa União e Sport Lisboa “Os Onze”.
S. Miguel, cujo orago tem o mesmo nome, festeja em grande o Santo António e tem como pratos típicos da freguesia a sardinha assada, joaquinzinhos e caracóis.

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