Museu Traje e do Teatro / Parque Monteiro-mor

O nome de Monteiro-Mor, consagrado da toponímia local desde meados do século XVIII, foi atribuído a este Parque, por confinar com o pequeno Palácio onde habitaram dois Monteiros-Mores na segunda metade deste século; referimo-nos a D. Henrique de Noronha (M.M. 1717, filho de D. António de Noronha, 2o marquês de Angeja), que pelo seu casamento com D. Maria Josefa de Melo (filha do Monteiro-Mor Francisco de Melo) herdou este cargo, e D. Fernão Teles da Silva (M.M. 1728) segundo marido de D. Josefa (terceiro filho do conde de Tarouca e Monteiro-Mor do Reino), que adquiriu o Palácio a D. António de Beja Noronha e Almeida, fidalgo da Casa de Sua Majestade, que o adaptou. Confinante com a casa do Nobre, constituiu-se por compras sucessivas a vários proprietários, uma grande quinta, de que viria a ser herdeiro e senhor, D. Pedro José de Noronha de Albuquerque Moniz e Sousa (1716-1788), 3o marquês de Angeja, 4o conde de Vila Verde, gentil homem da Câmara de D. Maria I, e Primeiro Ministro, que sucedeu a Marquês de Pombal. Por interessante coincidência, os dois irmãos "Angeja" – D. Henrique e D. Pedro – dedicaram-se à Ciência Botânica. A este último mereceu-lhe o jardim botânico particulares cuidados, tendo-se iniciado na década de 1750 sob orientação do botânico italiano Domenico Vandelli (1735-1816), que foi professor de ciências naturais e química, e ainda director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e do Jardim Botânico da Ajuda.Consta que em 1793 o jardim botânico era já citado como sendo um dos três mais belos jardins de Lisboa.
O Palácio e o Jardim foram transmitidos na Casa Angeja até à descendente D. Mariana de Castelo Branco, que os vendeu em 1840 ao 1o marquês do Faial e 2o duque de Palmela, D. Domingos de Sousa Holstein Beck (1818-1864). A requintada cultura Palmela contribuiu para que o Palácio se transformasse num verdadeiro museu de obras de arte, e o jardim ornamentado com espécies exóticas raras, vindas especialmente de Inglaterra, fosse ainda mais enriquecido no seu já valioso inventário botânico.
Os mais categorizados técnicos de então foram escolhidos para os trabalhos de melhoramento do Parque (1840), sendo o botânico belga Rosenfelder, o botânico austríaco Friedrich Weldwitsh, e os jardineiros Jacob Weist e Otto os mais directos responsáveis. Foi finalmente o "jardineiro" João Batista Possidónio, orgulhoso de ter sido discípulo de Jacob Weist, quem, durante mais de 25 anos (1912) dirigiu o Parque com enorme dedicação e incontestável competência.
O duque de Palmela confiou a direcção do jardim a Friedrich Weldwitsh, depois de este ter deixado a direcção do Jardim Botânico da Escola Politécnica, hoje Faculdade de Ciências. Para além do jardim botânico, a propriedade rústica totalmente murada é ainda constituída por terras de semeadura que ocupam metade da sua área total.
Uma vasta zona verde foi delineada em jardins à inglesa, com pequenos recantos românticos ao gosto da época, cascatas cantantes, lagos de recorte natural, fontes escondidas e tanques povoados de rãs e peixes. Aqui se encontraram o poeta Almeida Garrett com a escritora inglesa Mrs. Norton, filha de Thomas Sheridan, autor de "English Laws for Women in the nineteenth century"; o poeta evocou este encontro na sua poesia "No Lumiar" na sua célebre obra Folhas Caídas. Todo este rico complexo permaneceu até aos nossos dias na posse da Família Palmela. A sua penúltima proprietária foi D. Maria José Holstein Beck Campilho. Porém, sabe-se ainda, e após afastar o véu que caíu sobre a história deste edifício depois da sua compra pelo duque de Palmela, da presença no mesmo da Embaixada de Marrocos, há algumas décadas.
Em 1970, um enorme incêndio destrói quase todo o Palácio, deixando de pé apenas as suas paredes exteriores. A representação diplomática abandona em definitivo o pouco que resta do edifício, totalmente reduzido a escombros. Nesta situação foi adquirido pelo Estado em 1975, e assim ficou até 1979.
Foi o Decreto-Lei no 558 de 27 de Setembro de 1975, que autorizou a Direcção-Geral da Fazenda Pública a adquirir a chamada "Quinta do Monteiro-Mor", situada no Lumiar em Lisboa, e, por sua vez, também permitiu a instalação condigna do então recente Museu Nacional do Trajo, no grande Palácio aí existente. A "Quinta" encontra-se reservada como zona verde no Plano Director da Cidade, o que a liberta de qualquer outra utilização. Após a aquisição pelo Estado, impunha-se, desde logo, tratar da recuperação do que restava do Palácio do Monteiro-Mor.
Em 1978, Vítor Pavão dos Santos propõe a criação de um Museu do Teatro naquele Palácio, o que acaba por ser aceite. Com esse objectivo, é decidido proceder-se ao restauro do edifício, embora ainda tivesse sido considerada a hipótese da sua completa demolição e construção de um totalmente novo. Justificava-se esta radical sugestão com o absurdo fundamento de o Palácio não ser especialmente bonito – daí, não significaria grande perda...
O jardim botânico do palácio tem o Jardim de Esculturas que é dedicado a Santo António e aos 23 franciscanos que foram crucificados na cidade de Nagasáki em 1597, mais conhecidos por Mártires do Japão..
Inaugurado em 1995 para albergar peças assinadas por artistas contemporâneos de origem nacional e internacional, o Jardim das Esculturas foi a forma que o Museu Nacional do Traje e da Moda encontrou para conseguir um enriquecimento cultural do património paisagístico que é hoje o Parque do Monteiro-Mor. Beneficiando de um envolvimento natural e de uma paisagem diversificada, a cada peça é permitida uma implantação conforme os critérios do seu autor, evitando-se deste modo as sujeições tantas vezes presentes nas exposições que são realizadas nos locais tradicionais. É neste contexto que surgem as esculturas de Catarina Baleiras, de Niizuma, de João Cutileiro e José Lucas, quatro artistas que, em conjunto, representam o momento da criação. Ocidente e Oriente juntos num mesmo espaço, fortalecendo a secular relação destes dois povos.Assim, a portuguesa Catarina Baleiras exprime-se através das "Senhoras de Forte Carácter Cultivam Ervas Silvestres", uma obra que, conduzida pela ideia de amálgama, assemelha-se, pela forma e não pela matéria, a novelos de lã, linho, algodão ou seda. O artista japonês, por seu lado, evoca, através do seu "Castle of the Eye", a verticalidade conquistada pelo Homo Erectus. É com esta obra que Niizuma pretende também transmitir, de forma abstracta, a sua ascendência secular de Samurai. João Cutileiro evoca Soror Mariana, a célebre autora das "Lettres Portugaises" através de uma imponente janela de mármore e ferro utilizando a mesma escala do Convento de Beja. José Lucas agiganta uma "Mola" de uso comum no estendal da roupa esculpida em mármore e ferro.
Existe também o Palácio Angeja-Palmela que foi mandado construir por D. Pedro José de Noronha, durante o Século XVIII, perto do local onde existira o Paço de D. Afonso Sanches, filho natural de D. Dinis.
De autoria desconhecida, o edifício foi construído sob influência da arquitectura pombalina, desenhando-se em duas fachadas, uma das quais termina com a Capela. Da construção primitiva resta-lhe apenas uma ombreira quinhentista, que se encontra numa residência contígua ao Palácio, e algumas estruturas arquitectónicas do Século XVII. A entrada principal do Palácio desenvolve-se como uma galilé e a articulação entre os andares é feita por uma escada de quatro lanços rectos. Nas salas destacam-se os tectos de masseira, os estuques, as pinturas ornamentais e alguns silhares de azulejos setecentistas. Em 1840, o edifício é adquirido por D. Pedro de Sousa e Holstein, Marquês de Palmela e mais tarde 1º Duque de Palmela, que levou a cabo obras de beneficiação do Palácio, entre as quais a reconstrução do pavilhão neo-gótico, hoje ocupado pelo restaurante do Museu Nacional do Traje.
A partir da II Guerra Mundial, o Palácio passou a funcionar como colégio religioso de belgas refugiadas, até que, em 1975, o Estado Português adquire a Quinta do Monteiro-Mor, que, para além do Palácio Angeja-Palmela, compreende o Palácio do Monteiro-Mor, uma casa do Século XVIII, o Jardim Botânico e uma zona verde com onze hectares. A ideia de criar o Museu Nacional do Traje surgiu na sequência de uma exposição realizada em 1974 no Museu Nacional de Arte Antiga sobre o traje civil em Portugal.
A Quinta do Monteiro-Mor reunia, segundo Natália Correia Guedes, fundadora do Museu, excelentes condições para levar a cabo o projecto, que incluía ainda a criação do Museu Nacional do Teatro, do Museu da Música e da Casa do Brinquedo, por estar integrado numa vasta zona verde. Destes quatro, apenas foram concretizados os dois primeiros projectos, no Palácio Angeja-Palmela e no Palácio do Monteiro-Mor, respectivamente, ficando inconcluído o programa de construção de uma Ilha de Museus, conforme pretendia Maria José de Mendonça, então Directora do Museu Nacional de Arte Antiga e mentora deste projecto.
O Museu do Teatro foi oficialmente criado em 1982 e está instalado no Palácio do Monteiro-mor. As suas colecções, que contam já com cerca de 300 mil espécies, englobam trajos e adereços de cena, maquetes de cenários, figurinos, desenhos, caricaturas, programas, cartazes e um arquivo com cerca de 120 mil fotografias, entre muitas outras peças.
Por norma, o Museu Nacional do Teatro tem patente duas exposições temporárias, que ocupam os dois pisos do seu edifício, dedicadas quer a companhias teatrais quer a personalidades ligadas ao mundo do espectáculo, ou ainda a aspectos menos conhecidos do trabalho teatral em toda a sua diversidade.

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