O Jardim da Estrela

Comemorou-se, em 2002, os 150 anos de vida do Jardim da Estrela. Passados 76 anos sobre a inauguração da Basílica da Estrela, que D.Maria mandara erguer, desenhava-se então o bairro de Campo de Ourique. Sobre o Largo do Coração de Jesus, só em 1889 denominado Largo da Estrela, existiam uns terrenos rústicos que pertenciam a António José Rodrigues. Os seus terrenos viriam, mais tarde, a ser os terrenos hoje ocupados pelo Jardim da Estrela.
Na altura, só existia o Passeio Público, que era mais uma alameda do que um parque. Daí a necessidade de construir um parque.
A ideia do Passeio da Estrela é atribuída a António Bernardo da Costa Cabral, Conde de Tomar e Ministro do Reino, em 1842. Ele foi inspirado pelo Dr. Laureano da Luz Gomes, presidente da Câmara Municipal (de Lisboa) e grande amigo do Conde de Tomar. O Conde era médico higienista, lente da Escola Médica, fundador do Jornal das Ciências Médicas, velara pela saúde da cidade e achava que um jardim seria um pulmão novo, num bairro novo.
Entretanto, os terrenos do já referido António Rodrigues foram à praça, e o Estado adquiriu-os. O processo prático, sob o ponto de vista financeiro, era o seguinte: o Estado adiantava os fundos, e, em rigor, ficava com o seu encargo. A Câmara tornar-se-ia donatária do terreno.
A Inspecção da Fazenda foi retardando a satisfação dos compromissos que o Conde de Tomar assumiu em nome da Rainha.
Surge então Manuel José de Oliveira, Barão de Barcelinhos, capitalista, conhecido por "Manuel dos Contos", alcunha derivada da sua fortuna. O barão concordou com a ideia e entrou com cinco contos de réis, pois pretendia agradar a Costa Cabral e ao Presidente da Câmara. Foi com este donativo que se compraram ou se expropriaram os terrenos de António Rodrigues, entregues à Câmara em 18/7/1842, e se fez face às primeiras despesas com a terraplanagem. Foi o primeiro passo para o Passeio da Estrela.
Vieram as lutas liberais, entre 1844 e 1847, e a ideia do Passeio da Estrela parecia desvanecer-se.
Findas as guerras liberais, surge então outro benemérito Joaquim Manuel Monteiro, comerciante português no Brasil, natural da Carvoeira. Inexplicavelmente, apaixonou-se pela ideia do jardim e ofereceu quatro contos de réis que foram depois elevados para 4757 réis e entregues na Inspecção Geral das Obras Públicas. Entretanto, em 1850, a Câmara, animada com este socorro, recomeçou a obra. Joaquim Manuel Monteiro veio, mais tarde, a receber do Rei D.Luís o título de Visconde e depois o de Conde da Estrela, título esse ligado à sua obra benemérita.
Decorria então o ano de 1851, e o dinheiro do Conde esgotou-se. Em Março do mesmo ano, a Câmara, presidida por Nuno José Pereira Bastos, expôs à Rainha D.Maria II a situação: "Só havia dinheiro para duas semanas de férias do pessoal, a obra não podia parar, o Governo comprometera-se a subsidiar, e a Câmara não via sinais de satisfação do compromisso. Sua Majestade que se dignasse intervir no assunto por intermédio da Fazenda Pública." A Rainha sentiu-se no dever de corresponder ao apelo da sua nobre e leal cidade – e o dinheiro apareceu.
No início do ano de 1852, o parque estava já esboçado e, a 3/4/1852, o Passeio da Estrela foi aberto à população. O povo de Lisboa acorreu e houve luminárias. O Passeio ficou deserto por uns dias, mas reagiu e organizou grandes festejos no Outono desse ano.
Podemos destacar dois homens: o Barão de Barcelinhos, que morrera cinco anos antes da inauguração do Jardim, e Joaquim Manuel Monteiro, que ainda viveu por mais 25 anos, no Brasil, visitando o Jardim sempre que vinha ao reino. Foram estes dois homens, afinal, com o seu dinheiro e a sua compreensão, que tornaram possível o Passeio da Estrela, abrindo caminho à generosidade da Rainha D.Maria II.
O Jardim tornou-se a atracção principal desta Lisboa que não conhecia cinemas, possuía quatro ou cinco teatros e alternava os seus divertimentos entre a Praça de Touros do Campo de Sant’Ana, o Circo Prince e os Recreios Lisbonenses.
O Jardim da Estrela foi cenário da evolução gradual dos costumes alfacinhas, das modas das mulheres e homens, da transformação de hábitos da nossa gente.
Em tardes ou noites de festas, de 1870 ao princípio do século passado, o Passeio da Estrela era um mundo alfacinha em ebulição. Tornaram-se frequentes as festas de caridade, promovidas por senhoras de alta sociedade com suas quermesses e tômbolas, luminárias de tijelinhas, músicas regimentais, as corridas de velocípedes, os fogos de artifício e, por vezes, as iluminações feéricas.
Mas, no final do século XIX, o Passeio da Estrela passou de moda para essas reuniões de senhoras da sociedade de sangue azul ou da alta burguesia. A aristocracia sumiu-se.
O Jardim da Estrela teve as suas últimas festas pomposas, "de estrondo", em 1895, pela altura do centenário de Santo António. O Jardim foi um jardim popular, como hoje vincadamente não o é.
Actualmente é conhecido por Jardim Guerra Junqueiro; foi melhorado e ligeiramente transformado em 1941 e, pode ter passado de moda, ou ter outros hábitos frequentadores, ou ainda ser uma linha de trânsito – o que aliás é comum a muitos parques no estrangeiro – mas não perde o seu carácter puro de jardim e de floresta pequenina no centro da cidade de Lisboa.
A construção do jardim teve início a 30 de Setembro de 1842 e as plantações foram orientadas pelos jardineiros Bonard e João Francisco, sendo inaugurado em Abril de 1852.
Numa jaula do jardim esteve o famoso leão da Estrela, oferecido ao jardim, em 1871, pelo não menos famoso africanista Paiva Raposo.
o Jardim da Estrela é um dos espaços verdes mais agradáveis da cidade. Árvores frondosas, recantos sossegados e, no cruzamento das suas principais alamedas, o Coreto, o mais antigo de Lisboa. Uma estrutura de ferro forjado vindo, em 1884, do Passeio Público (actuais Restauradores), quando da abertura da Avenida da Liberdade. É palco de espectáculos durante o Verão.

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