Os Casamentos de Santo António
Os Casamentos de Santo António, tradição muito antiga na nossa Cidade, começou por ser uma iniciativa do extinto jornal Diário Popular, em 1958. O objectivo era possibilitar o matrimónio, apadrinhado por Santo António, a casais com maiores dificuldades económicas. Tal como hoje, pretendia-se também materializar a fama casamenteira de Santo António, uma das figuras mais carismáticas da Cidade. Os noivos seleccionados ganhavam um enxoval e equipamentos domésticos. Curiosamente, nessa altura, era exigida uma insólita garantia de virgindade, provada clinicamente.A iniciativa, desde cedo, contou com o apoio incondicional do município vindo a tornar-se num acontecimento incontornável, inserido nas populares festas da Cidade. Foi também muito bem acolhida pela população da capital e, com ela, cresceu a fama casamenteira de Santo António. Franciscano exemplar, Santo António é considerado o protector dos marinheiros, dos pobres, dos leiteiros, das jovens casadouras e curador de infertilidades. Erradamente, é também considerado por muitos o santo padroeiro da cidade quando na realidade é São Vicente.Os Casamentos de Santo António viriam a ser interrompidos em 1974, no auge das grandes transformações sociais, económicas e políticas que o país atravessou, recomeçando novamente em 1997, trinta anos depois desde a última edição, agora sob a égide da Câmara Municipal de Lisboa e sem mudar uma vírgula à sua intenção original: ajudar todos aqueles mais desfavorecidos que, estando disponíveis para unir as suas vidas, escolhem esta data tão importante para a cidade para o fazer.
Santo António, padroeiro de Lisboa, vira protector de namorados e conciliador.
O casamenteiro dos alfacinhas
Disputado por Pádua e por Lisboa, o Doutor da Igreja, como foi reconhecido pelo Papa Pio XII, transformou-se no santo mais popular da capital portuguesa, figurando ao lado de S. Vicente, o patrono oficial da cidade e seu primeiro padroeiro. Conhecido em Itália apenas como O Santo, para os portugueses e muito especialmente para os alfacinhas ele é o Santo António de Lisboa, vulgo o santo casamenteiro. Protector dos namorados e conciliador de arrufos, é sob a sua benção que, este ano, uma vez mais, 16 casais vão dar o nó, nos Casamentos de Santo António.
Santo António é, sem dúvida, um símbolo fantástico do coração do povo. Não se sabe bem porquê, mas o certo é que o franciscano se tornou para as gentes portuguesas num milagreiro infalível, “uma espécie de remédio para tudo”, conforme o caracterizou o conhecido olisipógrafo Appio Sottomayor, numa das muitas crónicas que publicou no nosso jornal sobre o mais popular dos santos populares.
E então os lisboetas, esses, entronizaram o santo, na verdadeira acepção da palavra, e colocaram-no em nichos um pouco por todo o bairro da Sé, onde Fernando/António nasceu há 808 anos. Isto para não falar mesmo dos tronos de Santo António, que se espalham pelos portais das estreitas ruelas da Sé, do Castelo e de Alfama, durante as festas populares da cidade, qual deles o mais rico e o mais “sui generis”, e que constituem um tributo ao santo da cidade.
Não há alfacinha que não tenha alguma vez invocado os favores deste Doutor da Igreja, que o povo virou um fradinho jovial e brincalhão. “Daí ter nascido a ideia do moço que se escondia, à noitinha, perto das fontes, para assustar as raparigas, aparecendo-lhes de surpresa e fazendo com que algumas quebrassem as bilhas transportadas, tendo assim depois oportunidade de milagrosamente as consertar”, como conta Appio Sottomayor, interrogando-se sobre a veracidade destes ditos, que, naturalmente, serão uma lenda inofensiva.
O milagreiro
A fama do jovem frade milagreiro depressa alastrou pelo País, mas então mais como protector de namorados e muito especialmente como casamenteiro.Numa sociedade mais fechada e muito menos alfabetizada, nessa altura era difícil aos enamorados manifestarem abertamente os seus sentimentos. Daí que as raparigas, nestes casos sempre mais expeditas e devotas, recorressem com frequência ao santo do seu coração para encontrar namorado.
Para além das rezas e promessas que lhe faziam, as jovens chegavam mesmo a escrever-lhe um bilhete para que ele intercedesse no sentido de poderem vislumbrar a sua alma gémea. Quantas vezes se atreviam a escrever o nome do eleito, a ver se a tarefa do santinho ficaria mais facilitada...
Junto da igreja do santo, à Sé, até foi instituído, com um oportuno sentido comercial, uma espécie de escritório para quem não soubesse redigir as suas missivas. Reza a história, citada por Appio Sottomayor, que “um estabelecimento das imediações dispunha de escrivão privativo para atender as pretendentes e redigir as súplicas, a troco de algum metal...”.
Superstições
Conta-se ainda que os insistentes pedidos românticos não podiam ficar sem resposta por muito tempo, que logo não se excedessem sevícias sobre as imagens do santo, indo ao ponto de lhes cortar a cabeça, caso a questão se arrastasse e não houvesse solução à vista.
Aliás, era costume virar as imagens e os quadros ao contrário até que fossem satisfeitos os desejos das enamoradas. E havia também quem lançasse às águas do Tejo uma imagem de Santo António, na altura em que era feito o pedido. Superstições...
De padroeiro dos enamorados e casamenteiro, o santo passou também por ser um excelente conciliador de arrufos. Muitas mulheres casadas dirigiam-se-lhe, a fim de fazer voltar ao seu seio os maridos infiéis e muitas ainda solteiras procuravam segurar os noivos indecisos.
A ideia dos noivos
Com tal história, pois, não espanta que o Santo António de Lisboa tivesse servido de pólo central de uma iniciativa que começou nos anos 50 (em 1958) e que reunia no dia do padroeiro da cidade uma série de casais para se unirem pelo matrimónio.
A ideia partiu do jornalista Augusto Cortês Pinto, que foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa e cuja tese defendia que o tradicional culto lisboeta a Santo António deveria ser aproveitado também como “valor turístico”. Um casamento com esplendor para um grande número de noivos na Igreja de Santo António seria, assim, uma forma de atrair as pessoas ao local, proporcionando-lhes um espectáculo de grande
impacte e, simultaneamente, um dia inolvidável para os casais, bem como para os comerciantes da zona, é claro.
impacte e, simultaneamente, um dia inolvidável para os casais, bem como para os comerciantes da zona, é claro.Tal como acontece nos dias de hoje, a inscrição era muito disputada. A grande motivação, está de ver, era a garantia de um enxoval completo, o vestido de noiva e o fato para o noivo, as alianças, mobílias, roupas de cama e atoalhados, electrodomésticos e outras prendas pessoais e para o lar. Tudo oferecido pelos comerciantes das redondezas e mesmo de todo o País, que, por este meio, arrebatavam uma importante e muito oportuna publicidade.
O espectáculo
O ponto alto das festividades, que coincidiam, como hoje, com a grande azáfama dos bairros tradicionais por causa dos santos populares, era o grandioso espectáculo que constituía o cortejo dos noivos para e da igreja, junto da qual se reuniam numerosos populares curiosos e ansiosos por partilhar da alegria dos casais, pais e padrinhos.
Uma festa inolvidável e de uma riqueza fabulosa sobretudo para os intervenientes, por muito pobres que fossem.
Depois de ter sido interrompida, após o 25 de Abril de 74, esta iniciativa, retomada em 1997 com objectivos e critérios necessariamente diferentes, dada a ampla mudança operada com a Revolução dos Cravos, constitui também um atracção para os media, que dão a conhecer as belezas de Lisboa e pedaços de vidas recheadas das mais interessantes histórias. Histórias algumas extraordinárias de pessoas comuns.
As cerimónias
A iniciativa começou por presentear, em 1958, 60 casais, todos jovens, entre os 18 e os 30 anos, provenientes de famílias carenciadas de Lisboa, decorrendo as cerimónias dos casamentos – só católicos - na Sé Catedral de Lisboa. Cada casal só levava consigo como convidados os respectivos pais e padrinhos. Depois de uma fotografia de conjunto nos degraus da catedral de Lisboa, os noivos, caminhando sobre uma passadeira vermelha, atravessava o largo da Sé e ia depositar o ramo de flores junto da imagem do Santo António, num dos altares da igreja fronteiriça com o mesmo nome. Nesse tempo, eram escolhidas quatro firmas de fotografia e cada uma apresentava 15 fotógrafos, ficando cada casal com um profissional ao seu serviço. Depois, funcionavam por “poules”. As firmas, que disputavam acerrimamente a oportunidade de mostrarem o seu valor, disponibilizavam igualmente, por norma, algumas máquinas fotográficas para serem sorteadas entre os casais, oferecendo no final algumas fotos aos noivos para o seu álbum de casamento.
O cortejo
Os noivos eram conduzidos em cortejo nos populares “carochas” (Volkswagens) todos iguais que a Guérin punha à disposição da Câmara. Aliás, antes de se realizarem os casamentos, alguns dos carros que iriam transportar os casais ficavam em exposição no “stand” daquela empresa, no início da Avenida da Liberdade, junto ao Cinema Condes, bem como alguns dos vestidos de noiva. Era uma atracção para a população.
Após os casamentos, o cortejo costumava passar pelas ruas da Conceição e do Ouro, seguindo pelo Terreiro do Paço e Ribeira das Naus até ao Cais do Sodré e Avenida 24 de Julho, Calvário, Junqueira, Calçada da Ajuda e Monsanto, até ao Restaurante Montes Claros, onde era servido sempre o animado copo-d’água e se faziam as fotos de casamento no ambiente bucólico ali existente.
Lisboa «uniu» 16 casais este ano. 11 casamentos católicos e cinco civis. Uma das mulheres de branco é cidadã da Letónia.
Exposição dos Casamentos
Os primeiros dez anos dos Casamentos de Santo António podem ser revisitados numa exposição que pretende retratar a animação que o evento trazia à Lisboa dos anos 60, adianta a Agência Lusa.
Organizada pela Câmara Municipal de Lisboa, a exposição, que pode ser visitada até ao final de Junho nos Paços do Concelho, faz uma retrospectiva fotográfica e videográfica daquilo que foram os primórdios dos Casamentos de Santo António.
«A ideia é mostrar aos lisboetas e a quem visita a cidade um percurso que mostre alguns aspectos curiosos do evento», que começou por ser uma iniciativa do extinto jornal Diário Popular em 1958, refere a autarquia em comunicado.
Em declarações à agência Lusa, uma fonte da Câmara de Lisboa adiantou que as fotografias foram recolhidas do Centro Português de Fotografia e do Arquivo Fotográfico de Lisboa e tinham como base a revista Fama e o jornal Diário Popular.
A pesquisa das fotografias ficou a cargo da fotógrafa Inês Gonçalves.
O filme que mostra vários anos dos Casamentos de Santo António foi realizado com imagens de arquivo da RTP, acrescentou.
Os primeiros dez anos dos Casamentos de Santo António podem ser revisitados numa exposição que pretende retratar a animação que o evento trazia à Lisboa dos anos 60, adianta a Agência Lusa.
Organizada pela Câmara Municipal de Lisboa, a exposição, que pode ser visitada até ao final de Junho nos Paços do Concelho, faz uma retrospectiva fotográfica e videográfica daquilo que foram os primórdios dos Casamentos de Santo António.
«A ideia é mostrar aos lisboetas e a quem visita a cidade um percurso que mostre alguns aspectos curiosos do evento», que começou por ser uma iniciativa do extinto jornal Diário Popular em 1958, refere a autarquia em comunicado.
Em declarações à agência Lusa, uma fonte da Câmara de Lisboa adiantou que as fotografias foram recolhidas do Centro Português de Fotografia e do Arquivo Fotográfico de Lisboa e tinham como base a revista Fama e o jornal Diário Popular.
A pesquisa das fotografias ficou a cargo da fotógrafa Inês Gonçalves.
O filme que mostra vários anos dos Casamentos de Santo António foi realizado com imagens de arquivo da RTP, acrescentou.

Comentários
Vi estas fotos dos casamentos de Santo António aqui no seu blog e gostaria de saber se as possui em alta resolução para eu poder utilizar num trabalho.
Posso dar-lhe mais pormenores sobre o assunto se tiver a gentileza de me contactar.
Muitíssimo obrigada.
Elsa Rocha